A inteligência artificial já produz textos, resume documentos, organiza dados e responde a perguntas em poucos segundos. No entanto, quanto mais fácil se torna obter respostas, mais importante fica desenvolver pensamento crítico para avaliar informações, identificar vieses e tomar decisões melhores.
Essa foi a principal provocação da conversa mediada por Pedro Lane com participação de Mafoane Odara, psicóloga, executiva de Recursos Humanos e especialista em cultura e liderança, e Mariana Achutti, CEO e fundadora da newnew, durante o CONARH 2026.
O debate partiu de uma questão urgente para empresas, lideranças de RH e Comunicação Interna: a IA está ampliando a inteligência das pessoas ou apenas tornando mais rápida a terceirização do pensamento?
“Não é sobre não usar IA, é sobre quanto ela te torna mais inteligente do que você é hoje.”
A frase ajuda a separar dois usos muito diferentes da tecnologia. Em um deles, a IA funciona como apoio para investigar, comparar possibilidades e aprofundar análises. No outro, ela substitui o esforço de formular perguntas, verificar informações e construir argumentos.
O primeiro amplia a capacidade humana. O segundo pode atrofiá-la.
Pensamento crítico é infraestrutura para o trabalho
A expressão “pensamento crítico” costuma aparecer em listas de competências desejadas. Porém, diante da inteligência artificial, ela deixa de ser apenas uma habilidade comportamental e passa a funcionar como infraestrutura para o trabalho.
Sem pensamento crítico, a pessoa pode aceitar uma resposta incorreta porque ela parece bem escrita, usar um dado sem compreender sua origem, reproduzir um viés presente em uma base de informações ou tomar uma decisão importante apenas porque a ferramenta apresentou uma recomendação com segurança.
A tecnologia acelera o acesso à informação. Contudo, informação não é sinônimo de conhecimento.
“As pessoas que conseguirem distinguir informação de conhecimento terão muito mais vantagens competitivas nos seus lugares de trabalho”, afirmou Mafoane.
A diferença está no processo. A informação chega como conteúdo disponível. O conhecimento exige interpretação, contexto e conexão com outros saberes. Já a decisão demanda análise das consequências e responsabilidade sobre o resultado.
Por isso, o pensamento crítico não pode ser delegado integralmente a uma ferramenta. A IA pode ajudar a organizar possibilidades, mas não deve assumir sozinha a tarefa de definir o que faz sentido.
A IA pode apoiar o raciocínio, mas não deveria substituí-lo
A discussão sobre o uso da IA não precisa ser dividida entre aceitar ou rejeitar a tecnologia. A questão mais relevante é entender como ela está sendo incorporada ao trabalho.
Quando usada como uma espécie de prótese cognitiva, a IA pode ampliar a capacidade de análise. Ela ajuda a organizar informações, sugerir hipóteses, comparar cenários e acelerar tarefas repetitivas.
Porém, quando a pessoa delega à ferramenta a formulação do problema, a avaliação das fontes e a decisão final, o uso deixa de ser apoio e passa a ser substituição.
Mariana chamou atenção para esse risco ao falar sobre saúde cognitiva:
“Muito em breve a gente vai estar falando sobre uma outra saúde, que é a saúde cognitiva. As pessoas vão começar a terceirizar o seu pensamento.”
A comodidade é parte do problema. O cérebro tende a economizar energia. Portanto, se a organização recompensa apenas a velocidade e a ferramenta oferece respostas instantâneas, torna-se fácil abandonar etapas importantes do raciocínio.
A consequência aparece aos poucos: menos perguntas, menos investigação e mais confiança em respostas prontas.
O excesso de informação também reduz a profundidade
A internet ampliou o acesso a conteúdos, especialistas e perspectivas. Em contrapartida, o excesso de estímulos criou um ambiente em que tudo parece urgente e nada permanece tempo suficiente para ser realmente compreendido.
A chamada “tiktokização” do conhecimento representa essa transformação em conteúdos cada vez mais curtos, rápidos e fáceis de consumir. O microlearning pode ser útil para reforçar conceitos e facilitar atualizações. No entanto, quando se torna o único formato de aprendizagem, pode reduzir a disposição para lidar com temas complexos.
“Menos é mais. Entregar menos conteúdos com mais curadoria é mais importante. O acesso à informação existe para todo mundo. O que as pessoas querem consumir é ponto de vista, pensamento crítico”, afirmou Mariana.
A mudança, portanto, não é abandonar conteúdos curtos. É deixar de tratá-los como substitutos de experiências de aprendizagem mais profundas.
Em vez de oferecer catálogos intermináveis, as empresas podem selecionar menos materiais, contextualizar as fontes e propor perguntas que exijam interpretação. Assim, o conteúdo deixa de ser apenas uma pílula e passa a funcionar como ponto de partida para o pensamento.
Aprender é também reconhecer o que não se sabe
O pensamento crítico depende de uma atitude que nem sempre é valorizada no ambiente corporativo: reconhecer limites.
“Conhecimento é poder. Saber o que você não sabe é sabedoria”, lembrou Mafoane, citando Adam Grant.
A frase traz uma consequência prática para a gestão. Pessoas preparadas para o futuro não são aquelas que têm uma resposta para tudo. São aquelas que sabem identificar lacunas, formular perguntas e buscar informações de maneira responsável.
A inteligência artificial pode sugerir respostas. Porém, alguém precisa perceber quando a pergunta foi mal formulada, quando os dados são insuficientes ou quando a conclusão não considera determinados grupos.
Por isso, a aprendizagem corporativa precisa incentivar a curiosidade e a investigação. Não basta concluir cursos. É necessário produzir raciocínio útil a partir do que foi aprendido.
Complexidade exige repertório
A realidade das organizações reúne diferentes gerações, experiências, linguagens e expectativas. Ao mesmo tempo, decisões apoiadas por IA podem reproduzir desigualdades relacionadas a gênero, raça, idade e estilo.
A ferramenta não é neutra apenas porque é tecnológica. Ela trabalha com dados, critérios e padrões que precisam ser questionados.
“Aumente 300% a criticidade sobre o que a gente está construindo. Quais são os elementos que não estão sendo considerados e que são importantes?”
A pergunta é especialmente relevante para RH e Comunicação Interna. Um sistema pode parecer eficiente e, ainda assim, prejudicar determinados grupos. Uma comunicação pode alcançar muitas pessoas e, entretanto, não considerar diferentes repertórios culturais. Um indicador pode mostrar uma média positiva enquanto esconde desigualdades específicas.
O pensamento crítico ajuda a investigar o que ficou de fora.
Para ampliar essa capacidade, Mafoane defendeu a construção de repertório. Estudar a própria área melhora a execução. Conhecer outras áreas, por sua vez, amplia o pensamento e cria novas conexões.
Seu hábito de reservar “30 minutos de férias por dia” — estudando algo fora da especialidade, conversando com alguém diferente ou planejando uma viagem — funciona como uma prática de expansão de perspectivas.
Como desenvolver pensamento crítico nas empresas
A aprendizagem corporativa pode ser redesenhada para estimular análise, curiosidade e profundidade. Para isso, algumas mudanças são importantes.
Combine aprendizagem profunda e conteúdos rápidos
Trilhas de desenvolvimento podem incluir momentos de leitura, debates e aplicação prática. Em seguida, conteúdos curtos podem reforçar conceitos e apoiar a atualização.
Desse modo, o microlearning deixa de substituir a profundidade e passa a complementá-la.
Troque catálogos por curadoria
Oferecer muitos conteúdos não garante aprendizagem. Em vez disso, a empresa pode selecionar materiais com autoria, fontes e perspectivas claras.
Além disso, cada conteúdo pode vir acompanhado de perguntas, contrapontos e situações que ajudem o profissional a aplicar o conhecimento.
Avalie o raciocínio, não apenas o consumo
Concluir um curso mostra que uma atividade foi finalizada. Porém, não comprova que houve aprendizagem.
A avaliação pode considerar a produção de briefings, sínteses comparativas, análises de casos, aplicação em problemas internos e refutação de hipóteses.
O indicador deixa de ser “concluiu o conteúdo” e passa a ser “produziu uma análise útil”.
Transforme o uso da IA em um processo de pensamento
A organização pode estabelecer práticas para que a IA seja utilizada com mais responsabilidade. Antes de solicitar uma resposta, o profissional pode registrar sua hipótese inicial, definir critérios de qualidade e indicar quais fontes precisam ser verificadas.
Depois, a resposta da ferramenta deve ser comparada com outras informações e revisada criticamente.
O objetivo não é burocratizar o uso da tecnologia. É garantir que o raciocínio humano continue presente antes, durante e depois da interação com a IA.
O que priorizar quando a IA vira padrão?
Se a inteligência artificial se tornar parte da rotina, algumas competências ganharão ainda mais importância:
- Formulação de problemas.
- Leitura e interpretação de dados.
- Capacidade de elaborar hipóteses.
- Lógica de inferência.
- Avaliação da qualidade das fontes.
- Identificação de vieses.
- Análise de impacto sobre diferentes grupos.
- Comunicação de argumentos.
- Tomada de decisão responsável.
Essas habilidades não competem com a tecnologia. Pelo contrário, permitem que as pessoas a utilizem melhor.
Quanto mais poderosa for a ferramenta, maior será a responsabilidade de quem define os critérios, interpreta os resultados e decide como aplicá-los.
A pergunta é melhor do que a resposta pronta
A conversa entre Mafoane Odara e Mariana Achutti deixou um alerta para as empresas: a IA pode ampliar a produtividade, mas não garante inteligência organizacional.
Para isso, é preciso criar ambientes em que as pessoas tenham tempo para investigar, repertório para interpretar e segurança para questionar.
Menos volume pode significar mais aprendizagem. Diminuir as respostas automáticas pode abrir espaço para perguntas melhores. Reduzir o consumo passivo pode produzir mais capacidade de análise.
O pensamento crítico não é uma barreira à inovação. Ele é o que impede que a inovação seja adotada sem reflexão.
Em suma, o futuro não exige que as pessoas concorram com a IA em velocidade, mas, sim, que saibam utilizá-la sem abrir mão da própria capacidade de pensar.
Palestrantes: Pedro Lane – Founder da Flash, Mafoane Odara – CEO da Odara Educação e Inovação, e Mariana Achutti – CEO e Founder da newnew