O mercado de trabalho está mudando e as competências transferíveis ganharam importância nesse processo. Em um cenário marcado pela inteligência artificial, pela automação e pela transformação constante das funções, saber executar uma tarefa já não é suficiente para garantir a relevância profissional.
Para Alini Dal’Magro, CEO do Instituto PROA e autora do livro Tudo Sempre Começa Agora, o conhecimento técnico continua importante, mas precisa estar acompanhado de habilidades humanas e adaptativas.
“A competência técnica não sustenta trabalho”, afirmou durante sua palestra no CONARH 2026.
A frase resume a principal provocação feita pela especialista: profissionais podem dominar uma ferramenta ou atividade e, ainda assim, perder espaço quando não conseguem trabalhar em equipe, lidar com mudanças, resolver problemas novos ou se comunicar com clareza.
Por que as competências transferíveis são tão importantes?
As competências transferíveis são habilidades que podem ser aplicadas em diferentes funções, equipes e contextos. Entre elas estão:
- Comunicação.
- Colaboração.
- Pensamento crítico.
- Resolução de problemas.
- Criatividade.
- Adaptabilidade.
- Capacidade de aprender continuamente.
Enquanto a competência técnica está ligada ao domínio de uma atividade específica, as competências transferíveis ajudam o profissional a continuar aprendendo quando essa atividade muda.
É essa característica que torna essas habilidades especialmente importantes em um mercado transformado pela inteligência artificial. Ferramentas, processos e cargos podem ser redesenhados rapidamente. A capacidade de se adaptar continua sendo necessária em qualquer cenário.
“A gente fala muito de competência técnica, mas você entra na empresa, a pessoa sabe fazer, é muito legal, gerou valor. Seis meses depois, a pessoa não sabe trabalhar em equipe, não sabe se adaptar, e a gente perde essa pessoa”, pontuou Alini.
O conhecimento técnico tem prazo de validade
A automação vem alterando atividades que antes dependiam exclusivamente da execução humana. Com isso, conhecimentos técnicos podem perder valor mais rapidamente do que no passado.
Isso não significa que as empresas devam abandonar a formação técnica ou que os profissionais não precisem se especializar. O ponto é entender que uma habilidade técnica isolada não garante uma trajetória sustentável.
Uma ferramenta pode ser substituída. Um processo pode deixar de existir. Uma função pode ser reorganizada.
Nesse contexto, as competências transferíveis funcionam como uma espécie de base profissional. Elas ajudam a pessoa a aprender novas ferramentas, colaborar em diferentes projetos e encontrar soluções mesmo quando não existe um roteiro pronto.
Por isso, Alini questiona a lógica de demitir profissionais sempre que as funções mudam. Em muitos casos, a empresa pode desenvolver quem já conhece sua cultura, seus clientes e seus desafios.
A pergunta deixa de ser apenas “essa pessoa sabe fazer?” e passa a incluir outras questões:
- Ela consegue aprender?
- Como reage quando precisa mudar de rota?
- Sabe trabalhar com pessoas diferentes?
- Consegue lidar com pressão?
- Tem iniciativa para resolver problemas?
- Comunica suas ideias de maneira compreensível?
Como identificar essas habilidades
As competências transferíveis nem sempre aparecem no currículo. Uma lista de cargos, cursos e certificações pode mostrar o que a pessoa estudou e realizou, mas não explica completamente como ela age diante de situações novas.
Por isso, processos seletivos e avaliações precisam investigar experiências e comportamentos com mais profundidade.
Alini sugere observar as chamadas “conquistas da vida”:
“Essa pessoa já morou sozinha? Já saiu da cidade dela e foi para outra? Como ela se comportou nessas situações?”
A ideia não é transformar experiências pessoais em critérios arbitrários de contratação. O objetivo é compreender como o profissional lidou com mudanças, responsabilidades e desafios — sempre considerando as competências necessárias para a função.
Uma pessoa que precisou se adaptar a uma nova cidade pode ter desenvolvido autonomia. Alguém que participou de um projeto coletivo pode demonstrar capacidade de colaboração. Uma experiência esportiva pode revelar disciplina, persistência e disposição para lidar com frustrações.
Nenhuma dessas experiências deve ser analisada de forma isolada. O mais importante é identificar padrões de comportamento.
Repertório também é uma competência
Para Alini, o desenvolvimento profissional não acontece apenas em cursos, treinamentos e certificações. O repertório construído fora do trabalho também influencia a forma como uma pessoa pensa e resolve problemas.
“Como a gente não sabe qual vai ser o futuro do trabalho, quanto mais repertório social você tiver, mais chance você tem de se desenvolver. O que significa isso? Ir no cinema, ir no teatro, fazer coisas diferentes, praticar esportes. Tudo isso te dá repertório.”
O contato com diferentes experiências amplia a capacidade de observar situações por outros ângulos. Também ajuda a criar conexões, interpretar contextos e encontrar soluções menos óbvias.
A prática de um esporte pode fortalecer a disciplina e a resiliência. O contato com a cultura pode estimular criatividade e pensamento crítico. A convivência com pessoas de diferentes origens pode desenvolver escuta e flexibilidade.
Esse repertório se torna mais valioso quando a tecnologia assume tarefas repetitivas. O que passa a diferenciar os profissionais é a capacidade de interpretar problemas, tomar decisões e lidar com situações que não possuem respostas automáticas.
Como desenvolver competências transferíveis
Reconhecer a importância dessas habilidades é apenas o começo. As empresas precisam criar oportunidades reais para que os profissionais possam praticá-las.
Job rotation
A rotação entre áreas permite que os colaboradores conheçam diferentes processos e desafios. A prática amplia a visão sobre o negócio e estimula a adaptação.
Mentoria cruzada
A conexão entre profissionais de departamentos distintos, como Recursos Humanos e Financeiro, promove troca de conhecimentos e ajuda a reduzir os silos organizacionais.
Projetos multifuncionais
Squads e forças-tarefas formados por pessoas de diferentes áreas estimulam comunicação, colaboração e resolução conjunta de problemas.
Essas experiências colocam os profissionais em situações que exigem mais do que o domínio técnico. É preciso ouvir, negociar, aprender rapidamente e construir soluções com pessoas que possuem conhecimentos diferentes.
O papel da gestão de talentos
A discussão sobre competências transferíveis também exige mudanças na forma como as empresas conduzem a gestão de talentos.
Processos seletivos não devem avaliar apenas o conhecimento necessário para a execução imediata de uma função. É importante identificar o potencial de aprendizagem e a capacidade de adaptação.
Programas de desenvolvimento também precisam ir além dos treinamentos técnicos. A empresa pode criar projetos desafiadores, estimular mobilidade interna e oferecer espaços para colaboração entre áreas.
As avaliações de desempenho, por sua vez, devem considerar não apenas o resultado entregue, mas também a forma como ele foi alcançado. Comunicação, colaboração e capacidade de resolver problemas precisam fazer parte da conversa sobre performance.
A competência técnica precisa de uma base humana
A palestra de Alini Dal’Magro não propõe substituir as competências técnicas. O que ela defende é que essas habilidades não sustentam sozinhas uma carreira ou uma organização.
O conhecimento técnico pode gerar valor no presente. As competências transferíveis ajudam a manter esse valor quando o contexto muda.
Em um mundo no qual ferramentas e funções se transformam rapidamente, profissionais e empresas precisam desenvolver a capacidade de aprender, colaborar e se adaptar continuamente.
A pergunta que fica é: sua empresa está preparando as pessoas apenas para executar as tarefas de hoje ou também para enfrentar os desafios que ainda nem foram definidos?
Palestrante: Alini Dal’Magro – CEO do Instituto PROA