Uma sala de estar. Medidas anotadas no celular, referências espalhadas no WhatsApp, um marido que vai às lojas sem critério definido. Esse foi o ponto de partida que Daniela Bauer, da Open AI, escolheu para demonstrar ao vivo, no Web Summit Rio 2026, o que o Codex — a plataforma de agentes da empresa — é capaz de fazer por qualquer pessoa com uma ideia parada.
A escolha não foi por acaso. Ao abrir a sessão perguntando quem tinha uma ideia encalhada no bloco de notas, no papel ou na memória, quase todas as mãos da plateia subiram. O recado implícito era direto: o problema não é falta de ideia. É a distância entre a intenção e a execução.
Para gestores de RH e Comunicação Interna, essa distância é conhecida. Projetos que nunca saem da apresentação. Iniciativas que dependem de um técnico disponível. Conteúdos que ficam no rascunho porque “falta dar forma”. A palestra de Dani foi uma demonstração prática de que essa lacuna está diminuindo — e de que as implicações para o mundo do trabalho já estão em curso.
Da conversa ao projeto: o que muda com os agentes de IA
O Codex não é um chatbot. Essa foi a distinção central da apresentação. Enquanto ferramentas como o ChatGPT são úteis para raciocinar rapidamente, tirar dúvidas ou esboçar ideias em movimento, o Codex foi concebido para executar projetos completos — com múltiplos agentes trabalhando em paralelo, tarefas que duram horas, dias ou semanas, e um contexto que se acumula ao longo do tempo.
Na prática, isso significa que uma conversa pode gerar um site, uma planilha, um e-mail para fornecedor, um protótipo visual e uma automação semanal — tudo dentro do mesmo projeto, sem que o usuário precise reexplicar o contexto a cada etapa. Para quem trabalha com onboarding, comunicados internos, pesquisas de clima ou gestão de processos de RH, a lógica é a mesma: o valor não está em um único entregável, mas na continuidade que o sistema consegue dar à ideia original.
Um exemplo concreto: do levantamento ao orçamento
Para tornar o conceito tangível, Daniela conduziu ao vivo o projeto de redesign da sua sala de estar. O processo teve cinco etapas encadeadas: primeiro, um site criado pelo Codex para organizar o projeto e registrar anotações; depois, três opções de planta baixa respeitando medidas reais e restrições de uso; em seguida, direções visuais com paletas e materiais para comparação lado a lado; depois, uma planilha com itens, quantidades, links e preços estimados via pesquisa autônoma; e, por fim, rascunhos de e-mail para fornecedores — com aprovação humana obrigatória antes de qualquer envio.
Cada etapa preservou o contexto da anterior. Nenhuma exigiu que a usuária soubesse programar. E o processo inteiro poderia ser transformado em uma “skill” reutilizável — um método salvo que elimina a necessidade de copiar e colar prompts em janelas diferentes.
Para profissionais de RH, o paralelo é imediato: processos recorrentes como triagem de currículos, envio de comunicados, coleta de feedbacks ou atualização de políticas internas seguem a mesma lógica de etapas encadeadas que se beneficiam de automação com contexto acumulado.
“Jornalistas recebendo briefing às 7 da manhã”: o caso da Comunicação Interna
Um dos exemplos mais relevantes para a área de CI veio de uma menção lateral, mas significativa. Daniela relatou uma sessão recente com jornalistas que usam o Codex para automatizar a leitura de e-mails recebidos, organizar pautas e receber um briefing consolidado todas as manhãs — gerado automaticamente com base nas informações do dia anterior.
A mesma lógica se aplica a equipes de Comunicação Interna que precisam monitorar canais, consolidar demandas de diferentes áreas ou preparar resumos executivos para lideranças. O que antes exigia horas de curadoria manual pode, com contexto bem definido e automação configurada, virar uma rotina que roda sozinha — com revisão humana no ponto certo.
Curiosidade virou critério de contratação
A palestra trouxe também uma perspectiva direta sobre o mercado de talentos, em resposta a uma pergunta da plateia sobre o impacto dos agentes nas contratações de desenvolvedores. Daniela foi direta: dentro da OpenAI, o que mais pesa hoje na avaliação de candidatos — especialmente em engenharia e pesquisa — não é o domínio técnico isolado, mas a curiosidade demonstrada na prática.
“O nosso maior interesse é: você está construindo. Você pode não ser a pessoa mais técnica do mundo. Mas qual a sua curiosidade de aprender?”, disse ela, descrevendo o perfil valorizado internamente.
Para gestores de RH, isso não é apenas uma curiosidade sobre a cultura da OpenAI. É um sinal de reorientação em critérios de seleção que já está se espalhando pelo mercado técnico — e que tende a alcançar outras áreas. A capacidade de iterar, experimentar e continuar construindo está se tornando mais relevante do que o repertório técnico fixo. Avaliar e desenvolver essa característica em times é, cada vez mais, um desafio estratégico para RH.
Conhecimento tácito como produto
Outro ponto que merece atenção das áreas de gestão de pessoas foi levantado pelo mediador Christian Rôças, o Crocas, Head de Comunidades, Criadores e Talentos da OpenAI para a América Latina, ao falar sobre Skills — funcionalidades que o usuário cria a partir de métodos próprios e pode compartilhar ou vender.
O exemplo dado foi real: um participante da comunidade criou uma skill personalizada para a filha de 11 anos, com potencial de distribuição em lojas de aplicativos.
O conceito tem implicações diretas para a gestão do conhecimento organizacional. O saber tácito de especialistas — aquele que vive na cabeça das pessoas e raramente é documentado — pode, com as ferramentas certas, ser formalizado, testado e replicado. Programas de sucessão, transferência de conhecimento e onboarding especializado ganham um novo instrumento que ainda está sendo explorado.
A pergunta que fica para RH e CI não é se essas ferramentas chegarão ao cotidiano das organizações. Já chegaram. A pergunta é quem, dentro das empresas, está experimentando com curiosidade suficiente para transformar os primeiros testes em processos reais — e quais equipes ficarão esperando o técnico chegar para começar.
FAQ
O Codex é a plataforma de agentes da OpenAI, projetada para executar projetos completos em etapas, com múltiplos agentes trabalhando em paralelo e contexto acumulado ao longo do tempo. Ao contrário de chatbots convencionais, ele não responde apenas a perguntas — ele executa tarefas encadeadas, gera arquivos, conecta ferramentas externas e mantém o histórico do projeto para uso futuro.
Não. A palestra foi explícita nesse ponto: a plataforma foi desenvolvida para ser usada por pessoas sem conhecimento técnico. O exemplo demonstrado ao vivo — um projeto de design de interiores completo, do briefing ao orçamento — foi conduzido sem uma linha de código.
As aplicações mais diretas incluem automação de briefings diários com base em e-mails e calendários, criação de sites internos para organizar projetos, geração de rascunhos de comunicados com revisão humana antes do envio, e construção de rotinas recorrentes que consolidam informações de múltiplas fontes automaticamente.
Processos com etapas repetíveis e previsíveis são os mais adequados: onboarding documental, pesquisas de clima com análise de respostas, atualização de políticas internas, triagem inicial de candidatos, relatórios de indicadores de pessoas e comunicação de benefícios. O ponto-chave é mapear bem o processo antes de automatizar.
Segundo a própria OpenAI, a curiosidade prática — demonstrada em projetos construídos, não apenas em conhecimento declarado — está se tornando o principal diferencial avaliado, acima do domínio técnico isolado. Para RH, isso sugere revisar critérios de seleção e desenvolver metodologias que identifiquem disposição para experimentar e iterar.
A recomendação da palestra foi simples: comece com uma ideia real, mesmo que esteja só no bloco de notas. Escolha um processo recorrente, dê o primeiro prompt sem buscar perfeição e vá refinando por etapas. O valor está na continuidade, não na configuração inicial perfeita.








