Aprendizagem contínua: como o RH pode aprender mais rápido que o mundo muda

Manoela Mitchell e Melina López durante palestra sobre aprendizagem contínua, liderança adaptativa e inteligência artificial no RH no CONARH 2026

Sumário

A aprendizagem contínua deixou de ser apenas uma frente de desenvolvimento. Em um cenário de inteligência artificial, mudanças rápidas e habilidades que perdem valor em pouco tempo, ela se tornou uma condição para a adaptação das empresas.

Essa foi a principal mensagem de Manoela Mitchell, CEO e cofundadora da Pipo Saúde, e Melina López, gerente de marketing de desenvolvedores para a América Latina no Google Cloud, durante palestra moderada por Silvana Aquino no CONARH 2026.

As duas partiram de realidades diferentes, mas chegaram ao mesmo ponto: organizações adaptáveis não constroem transformação apenas com novas ferramentas. Elas precisam criar ambientes em que as pessoas aprendam, testem, discordem e ajustem suas práticas continuamente.

“Ainda que a gente fale da adaptabilidade do ser humano, a verdade é que o ser humano gosta de zona de conforto. Mudança exige energia; por isso, liderança precisa criar consciência e clareza de expectativas”, afirmou Manoela.

Aprendizagem contínua precisa virar prática

A obsolescência das habilidades já afeta a forma como as empresas pensam em desenvolvimento. Até 2030, quase 70% das competências atuais podem deixar de ser úteis, segundo dado apresentado durante a palestra.

Diante desse cenário, não basta oferecer treinamentos de tempos em tempos. A aprendizagem precisa fazer parte da rotina, estar conectada às entregas e gerar mudanças observáveis no trabalho.

Melina resumiu essa transformação ao afirmar que “aprender virou um processo incremental” e precisa estar ligado ao que o mercado valoriza.

Isso significa substituir ações isoladas por ciclos curtos de aprendizagem aplicada. Em vez de concentrar todo o desenvolvimento em um treinamento longo, o RH pode combinar conteúdos rápidos, exercícios práticos, acompanhamento da liderança e revisão dos resultados.

Para aproximar aprendizagem e desempenho, as organizações podem:

  • Criar rotinas semanais de aprendizagem.
  • Conectar cada trilha a uma necessidade concreta da área.
  • Informar o que deve mudar depois do treinamento.
  • Acompanhar a aplicação do conhecimento.
  • Medir efeitos sobre qualidade, tempo, custo e produtividade.

A participação e a conclusão mostram o alcance da iniciativa. Porém, não comprovam que houve aprendizagem. O indicador mais importante aparece quando a pessoa aplica o conhecimento e melhora sua entrega.

Liderança adaptativa começa pela clareza

Mudanças organizacionais costumam fracassar quando as pessoas não entendem o que está sendo alterado em sua rotina.

O colaborador precisa saber o que se espera dele, quais competências deverá desenvolver, que responsabilidades mudarão e como seu trabalho será avaliado.

Manoela destacou que a transformação não acontece apenas por decisão da liderança. “A organização só se transforma quando as pessoas se transformam. IA é maravilhosa, mas só entrega se houver revolução do sistema de pessoas”, afirmou.

A clareza de expectativas ajuda a reduzir insegurança e evita que a mudança se transforme em uma sequência de mensagens genéricas sobre inovação.

O RH pode apoiar esse processo ao criar:

  • Documentos simples sobre o que muda em cada função.
  • Metas e entregáveis revisados.
  • Rituais de acompanhamento.
  • Comunicação em diferentes canais.
  • Espaços para dúvidas e ajustes.
  • Reconhecimento para quem aplica novas práticas.

A liderança adaptativa não elimina a direção. Pelo contrário, ela combina clareza sobre o destino com abertura para ajustar o caminho.

A transformação precisa de participação

Nenhuma mudança complexa se sustenta apenas de cima para baixo. As pessoas que executam os processos precisam participar do redesenho, testar soluções e indicar o que funciona na prática.

Por isso, a adoção de inteligência artificial deve envolver áreas diferentes e considerar a experiência dos usuários internos.

Grupos de trabalho transversais podem ajudar a:

  • Mapear problemas reais.
  • Desenhar fluxos com IA.
  • Testar protótipos.
  • Identificar riscos.
  • Ajustar metas e indicadores.
  • Definir padrões de uso.

A participação também cria senso de autoria. Quando as pessoas ajudam a construir a mudança, tendem a compreender melhor sua finalidade e a encontrar maneiras mais adequadas de aplicá-la.

Aprender com quem pensa diferente

A polarização também apareceu como um desafio para a aprendizagem organizacional.

“Se você não pensa como eu, eu não me relaciono com você. Em um país polarizado, aprender com o outro virou um desafio estratégico”, observou Melina.

A frase mostra que a diversidade de opiniões só gera valor quando existe disposição para escutar. Sem confiança, as pessoas evitam discordar, escondem dúvidas e deixam de compartilhar informações importantes.

Como consequência, a inteligência coletiva diminui e as decisões ficam mais pobres.

Para fortalecer o diálogo, o RH e as lideranças podem criar regras de engajamento que valorizem:

  • Escuta ativa.
  • Discordância respeitosa.
  • Uso de evidências.
  • Separação entre crítica à ideia e crítica à pessoa.
  • Participação equilibrada.
  • Registro dos aprendizados após os debates.

Também é possível criar sessões de confronto produtivo, nas quais grupos testam hipóteses e procuram fragilidades em uma proposta antes de sua implementação.

Discordar, nesse caso, não significa romper. Significa aumentar a qualidade da decisão.

A IA precisa ser integrada ao sistema de pessoas

A inteligência artificial pode gerar uma sensação inicial de superpoder. Ela escreve, resume, organiza informações e acelera tarefas.

Contudo, o ganho não se sustenta quando a empresa mantém os mesmos processos, papéis e critérios de antes.

Manoela resumiu esse ponto ao afirmar que “IA é uma ferramenta maravilhosa, mas só entrega se a gente atingir uma revolução do sistema de pessoas dentro das organizações”.

A adoção da tecnologia exige mais do que liberar o acesso a uma ferramenta. Também é necessário redesenhar tarefas, definir responsabilidades e preparar as pessoas para supervisionar os resultados.

O RH pode começar por quatro frentes:

  • Mapear tarefas repetitivas e de alto volume.
  • Priorizar processos em que a IA pode melhorar tempo e qualidade.
  • Criar perfis profissionais com competências relacionadas à IA.
  • Definir responsáveis por segurança, ética e revisão humana.

A tecnologia aumenta o trabalho humano quando existe intencionalidade no desenho. Caso contrário, apenas adiciona uma nova camada de complexidade à rotina.

A cultura precisa acompanhar a ferramenta

Uma empresa pode disponibilizar uma solução de IA e, ainda assim, não conseguir incorporá-la ao trabalho.

Isso acontece quando os colaboradores não entendem por que devem usá-la, não recebem orientação suficiente ou não encontram espaço para testar e fazer perguntas.

Por esse motivo, a integração da IA precisa estar conectada à cultura de aprendizagem. A empresa deve tratar erros iniciais como parte do processo, compartilhar casos de uso e reconhecer avanços concretos.

Uma academia interna de IA, por exemplo, pode oferecer trilhas específicas por função, exercícios práticos e avaliações baseadas em situações reais.

O conteúdo precisa responder a perguntas objetivas:

  • Como essa tecnologia se aplica à minha função?
  • Que tarefas podem ser automatizadas?
  • Que decisões continuam sob responsabilidade humana?
  • Como verificar a qualidade de uma resposta?
  • Que dados não devem ser compartilhados?
  • Como identificar vieses e riscos?

Assim, a aprendizagem deixa de ser abstrata e passa a apoiar a mudança no cotidiano.

Organizações adaptativas aprendem em ciclos

A aprendizagem contínua não depende apenas de grandes programas. Ela também aparece em pequenos ciclos de experimentação, aplicação e revisão.

Uma equipe testa uma ferramenta. Depois, analisa o resultado. Em seguida, ajusta o processo e compartilha o que aprendeu.

Esse modelo exige que a liderança crie rituais para acompanhar a mudança. Check-ins rápidos podem ajudar a responder:

  • O que testamos?
  • O que funcionou?
  • O que não funcionou?
  • O que aprendemos?
  • O que vamos ajustar?

A repetição desses ciclos desenvolve uma musculatura adaptativa. A empresa deixa de esperar uma solução perfeita e passa a melhorar com base na experiência.

Aprender mais rápido, nesse contexto, não significa consumir mais conteúdo. Significa transformar conhecimento em prática com menos demora e mais qualidade.

O RH como engenheiro da mudança

A palestra de Manoela Mitchell e Melina López reforçou que a adaptação organizacional não acontece por meio de slogans.

Ela depende de aprendizagem aplicada, clareza de expectativas, participação das equipes e segurança para discordar. Também exige que a inteligência artificial seja integrada aos processos, aos papéis e à cultura, em vez de funcionar como uma ferramenta isolada.

O RH ocupa uma posição central nesse movimento. Cabe à área ajudar a traduzir a estratégia, redesenhar experiências de aprendizagem, preparar lideranças e acompanhar a mudança no dia a dia.

A empresa que aprende continuamente não é aquela que oferece mais treinamentos. É aquela que transforma conversas, processos e experiências em capacidade de execução.

Para apoiar o planejamento de campanhas de adoção, rituais de aprendizagem e comunicação interna, o RH pode utilizar o PlannerStudio da Workhub, organizando planos, atividades e conteúdos em diferentes canais.

Palestrantes: Manoela Mitchell – CEO e cofundadora da Pipo Saúde; Melina López – Gerente de marketing de desenvolvedores para a América Latina no Google; e Silvana Aquino – Diretora Brasil Originário da ABRH Brasil

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