500 Agentes de IA e um RH Que Precisou se Reinventar

500 Agentes de IA e um RH Que Precisou se Reinventar

Sumário

Quinhentos agentes de inteligência artificial rodando simultaneamente dentro de uma única empresa. Não é ficção científica nem o roteiro de uma startup do Vale do Silício — é a realidade atual da Hypera Pharma, uma das maiores farmacêuticas do Brasil. No painel realizado durante o AiTOUR.ai no Porto Maravalley, Fernanda Dias Brandão (Hypera Pharma) e Daniel Uderman (Grupo Profarma) contaram como chegaram até aqui — e o que quase deu errado no caminho.

A conversa, mediada por Renato Ferreira da Tess AI, foi uma aula de estratégia corporativa disfarçada de painel de tecnologia. Os dois cases revelam que implementar IA em larga escala não é questão de ferramenta — é questão de gestão de pessoas, cultura organizacional e patrocínio executivo.

Sem o CEO na sala, o projeto não anda

O Grupo Profarma tem mais de 10 mil colaboradores. Antes de automatizar qualquer processo, o time responsável pela implementação de IA fez uma escolha que se mostrou decisiva: começou pela alta liderança. “O nosso momento, que foi talvez o mais importante para começar certo, foi quando chamamos a Tess para um workshop de dois dias para explicar, para executivos, o que é IA”, relatou Daniel Uderman. “Todo mundo entrou na mesma página e aí conseguimos o patrocínio executivo.”

Para o RH, a lição é direta: nenhum projeto de transformação digital sobrevive sem adesão da liderança. Renato Ferreira reforçou o ponto durante o debate: sem que a pauta seja tratada como agenda institucional, com visibilidade e apoio real da alta gestão, os projetos dificilmente avançam ou se consolidam.

O que o Grupo Profarma fez a seguir também merece atenção: os resultados foram apresentados diretamente ao CEO. Isso gerou visibilidade para analistas que normalmente não teriam acesso à cúpula — e criou uma competição saudável entre áreas para mostrar quem conseguia usar melhor a tecnologia. Um mecanismo simples de engajamento com efeito poderoso sobre a cultura de inovação interna.

Comece onde a dor é óbvia — e mensurável

A Hypera Pharma escolhou um caminho diferente: em vez de treinar a liderança primeiro, foi direto a um problema concreto. A área de criação de conteúdo médico tinha uma demanda enorme — produzir materiais específicos para diferentes regiões do Brasil, baseados em evidências científicas, com agilidade e conformidade regulatória. Era uma tarefa que consumia horas de pesquisa manual por profissional.

Um agente de IA foi configurado para acessar bases de dados científicas e gerar esses artigos de forma estruturada. O resultado: velocidade de produção radicalmente maior, com o profissional humano assumindo o papel de curador e validador — não mais de pesquisador manual.

Outro agente automatizou a criação de “histórias de usuário” para equipes de desenvolvimento de produto. Fernanda Brandão descreveu o ganho de velocidade como “colossal”. E sintetizou a lógica por trás das escolhas da empresa: “Quando tem uma replicabilidade, faz muito sentido investir num bom agente.”

Para o RH, a tradução prática é identificar processos que se repetem com frequência e seguem um padrão claro. Triagem de candidatos com critérios definidos, onboarding com etapas padronizadas, respostas a dúvidas frequentes de colaboradores — todos são candidatos naturais à automação por agente.

💡 Dado: A Hypera Pharma opera hoje com mais de 500 agentes de IA ativos. O Grupo Profarma usou agentes para monitorar horas extras de mais de 10 mil colaboradores, gerando alertas automáticos para líderes e reduzindo custos operacionais.

Agente de IA não é sinônimo de solução para tudo

Um dos pontos mais práticos do painel foi a distinção feita entre quando usar um agente e quando não usar. Fernanda Brandão apresentou um framework simples que a Hypera adotou: mapear o processo e entender em quais momentos o ser humano entrega mais valor e em quais o agente performa melhor.

“A gente começou a trazer inteligência artificial não só como uma tecnologia, mas como um processo”, explicou. Essa visão muda tudo — porque desloca o debate da ferramenta para o desenho do trabalho. O RH entra aqui como protagonista: é a área mais capacitada para analisar fluxos de trabalho, entender o que exige julgamento humano e o que é puramente operacional.

Nem toda tarefa merece um agente. Algumas são resolvidas com um prompt bem escrito num chat de IA. Outras, com funcionalidades já disponíveis em ferramentas que a empresa já usa, como suítes de produtividade. Criar um agente para algo que já tem solução mais simples é desperdício de tempo e dinheiro.

Quando a IA escala, a governança não pode ficar para depois

Chegar a 500 agentes traz um problema novo: quem cuida de tudo isso? A Hypera Pharma precisou enfrentar questões que não existiam no começo — controle de custos (cada interação com modelos de IA tem um custo, chamado de “consumo de tokens”), permissionamento de acesso a diferentes ferramentas, e um processo para decidir quais agentes seriam oficialmente reconhecidos pela empresa.

Sem governança, o crescimento vira caos. Com ela, vira escala sustentável. Para o RH, isso tem uma dimensão muito concreta: a área pode — e deve — participar da definição de políticas de uso de IA, assim como participa da definição de políticas de uso de dados ou de ferramentas de comunicação interna. Questões como “quem pode criar um agente?”, “como garantimos que o agente não comete erros graves com colaboradores?” e “como auditamos o que foi automatizado?” são perguntas de gestão de pessoas, não só de TI.

Conclusão

Os dois cases apresentados no Web Summit Rio mostram que a escala da IA nas empresas não é uma questão de tecnologia — é uma questão de maturidade organizacional. Liderança engajada, problema bem definido, distinção entre o que precisa de humano e o que pode ser automatizado, e governança desde o início: esses são os ingredientes que separam os projetos que avançam dos que morrem na primeira revisão de orçamento. A pergunta que fica para o RH é: sua área está participando da construção dessas decisões — ou apenas executando o que outros definiram?

FAQ sobre agentes de IA e RH

O que é um agente de IA e como ele difere de usar um assistente como o ChatGPT?

Um agente de IA executa tarefas de forma autônoma e encadeada — acessa sistemas, processa dados, toma ações e entrega resultados sem intervenção humana a cada passo. Usar um chat de IA é como perguntar algo a um colega; um agente é como delegar uma tarefa que ele executa sozinho do início ao fim.

Por onde o RH deve começar para implementar agentes de IA?

Comece mapeando um processo repetitivo com critérios claros e volume alto — triagem de currículos, onboarding, respostas a FAQs de colaboradores. Escolha algo mensurável para que o resultado justifique a expansão. Antes disso, garanta que pelo menos um líder sênior esteja engajado e entenda o que está sendo feito.

Qual é o maior erro das empresas ao implementar IA em RH?

Pular a etapa de definição de quando o humano é insubstituível. Automatizar processos que exigem julgamento, empatia ou leitura de contexto resulta em experiências ruins para candidatos e colaboradores. O mapeamento de quem faz o quê — humano ou agente — precisa vir antes da ferramenta.

Como controlar os custos quando o uso de IA cresce muito dentro da empresa?

Cada consulta a um modelo de IA tem um custo (consumo de tokens). Com dezenas ou centenas de agentes, esses custos se acumulam rapidamente. A solução é implementar limites por equipe ou por agente, monitorar o consumo regularmente e usar plataformas que ofereçam controle de permissões — assim como se faz com licenças de software.

Como o RH pode convencer a liderança a apoiar um projeto de IA?

O caminho mais eficaz, segundo o case do Grupo Profarma, é educar antes de propor. Um workshop de dois dias com executivos para explicar o que é IA, o que ela pode e o que não pode, cria alinhamento e reduz resistências. Apresentar resultados diretamente ao CEO, mesmo que pequenos, mantém a visibilidade do projeto.

Existe risco de o agente de IA substituir posições de RH?

O modelo que emerge dos cases apresentados é de substituição de tarefas, não de cargos. Profissionais de RH que atuavam principalmente em atividades operacionais e repetitivas precisarão migrar para funções de curadoria, validação e gestão dos próprios agentes. A recomendação é usar esse momento para reposicionar o RH como área estratégica — e participar ativamente do design dos novos fluxos de trabalho.


Palestrantes: Fernanda Dias Brandão — Hypera Pharma | Daniel Uderman — Grupo Profarma | Renato Ferreira (moderador) — Tess AI
Evento: Web Summit Rio 2026 / AiTOUR.ai

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