Engajamento não se compra com benefício

engajamento não se compra com benefício

Sumário

Seis em cada dez trabalhadores brasileiros estão desengajados. O número parece absurdo em um momento em que as empresas nunca investiram tanto em tecnologia, benefícios e plataformas de experiência do colaborador. E é justamente esse paradoxo que Rafaela Souza, Gerente de Pessoas e Performance Organizacional da Teto Brasil, trouxe ao palco do Web Summit Rio 2026 com dados que incomodam — e com caminhos que funcionam.

A conta não fecha: o desengajamento custa às empresas brasileiras R$ 77 bilhões por ano entre turnover e presenteísmo — aquele colaborador que está na cadeira, mas não está, de fato, no trabalho. Globalmente, o problema é ainda mais alarmante: apenas 20% dos profissionais se sentem engajados. O investimento em tecnologia cresce. O engajamento cai. O que está errado nessa equação?

Quando o líder apaga, a equipe some junto

A liderança direta responde por 70% da variação no engajamento de uma equipe. Mas há um problema que poucos programas de RH enfrentam com franqueza: os próprios líderes estão exaustos. No Brasil, 78% dos gestores relatam algum grau de ansiedade. Um líder fatigado não inspira, não escuta e não cria ambiente de pertencimento — e o efeito se propaga para baixo como um dominó.

Souza apontou que o cansaço da liderança não é fraqueza individual: é um sintoma de organizações que não cuidam de quem cuida. Para RH e Comunicação Interna, a implicação é direta — antes de lançar mais uma iniciativa de engajamento para os times, vale perguntar: os gestores têm suporte real para exercer sua liderança?

💡 Dado: 83% dos trabalhadores globais relatam algum grau de burnout, segundo dados citados na palestra. A hiperestimulação causada pela aceleração tecnológica é uma das causas centrais.

Satisfação e engajamento: confundir os dois sai caro

Um dos pontos mais provocadores da palestra foi a distinção entre satisfação e engajamento — conceitos que muitas organizações tratam como sinônimos, com resultados pífios.

“Satisfação é ausência de dor”, afirmou Souza. “Mas isso não significa que eu vou estar engajada. Engajar é você querer fazer, é você dar o seu melhor para aquilo acontecer.”

Um colaborador satisfeito pode estar em modo quiet quitting: faz o mínimo para não ser demitido, não causa problema, mas também não gera valor. Ele não reclama da empresa na saída — simplesmente não está comprometido com os resultados.

Para o RH, isso significa rever os instrumentos de escuta. Pesquisas de clima que medem satisfação com benefícios e ambiente físico capturam apenas parte da realidade. O engajamento exige perguntas sobre propósito, autonomia e conexão — e, principalmente, líderes preparados para agir com base nessas respostas.

Conhecer a pessoa antes de gerenciar a função

Souza citou Carlo Ancelotti, um dos técnicos mais bem-sucedidos do futebol mundial, para ilustrar uma das estratégias mais simples e subutilizadas pela liderança: “O jogador não é um jogador. É uma pessoa que joga futebol. Isso eu tenho muito claro na minha cabeça.”

A transferência para o ambiente corporativo é imediata. Quando um gestor conhece a história, as motivações e os sonhos de cada membro da equipe, a capacidade de desenvolver, reter e motivar se multiplica. Não se trata de psicologia clínica — trata-se de curiosidade genuína sobre as pessoas.

Para equipes de RH e CI, isso abre um campo concreto de atuação: criar rituais e espaços que facilitem esse conhecimento mútuo, do onboarding às reuniões de desenvolvimento individual, passando pela forma como a comunicação interna humaniza as histórias dentro da organização.

Segurança psicológica: o ambiente que libera o melhor das pessoas

Outro caminho apontado por Souza é a construção de segurança psicológica — um conceito popularizado por pesquisas do Google e que a Teto Brasil coloca em prática com seus voluntários e equipes internas.

Segurança psicológica não é ausência de conflito ou de cobrança. É a certeza de que é possível discordar, errar, sugerir algo diferente e dar feedback sem ser punido por isso. Líderes que criam esse ambiente precisam, antes de tudo, demonstrar vulnerabilidade: admitir o que não sabem, receber críticas com abertura e transformar erros em aprendizado coletivo — e não em caça aos culpados.

O papel da Comunicação Interna aqui é estratégico: a narrativa que a empresa conta sobre como trata os erros e o feedback molda diretamente a percepção de segurança de cada colaborador.

Do time para a comunidade: o poder do propósito compartilhado

O terceiro caminho proposto conecta engajamento a pertencimento. Inspirada no conceito sociológico do “terceiro lugar” — um espaço social além de casa e trabalho — Souza defende que as empresas podem criar esse senso de comunidade de forma intencional.

Programas de voluntariado corporativo são um exemplo com dados sólidos: 74% dos participantes relatam maior engajamento após experiências voluntárias. A explicação está na combinação de propósito, conexão interpessoal e saída da rotina — três ingredientes que o ambiente de trabalho convencional raramente oferece ao mesmo tempo.

“O engajamento não vai acontecer só na frente de um computador”, disse Souza. “Ele vai acontecer quando você sair do óbvio e tiver coisas diferentes.”

💡 Dado: 74% dos colaboradores que participam de programas de voluntariado corporativo relatam aumento no engajamento com a empresa.

O que fica depois do palco

Engajamento é, na definição de Rafaela Souza, “o maior elo entre pessoas e resultado de negócio”. E num cenário em que a inteligência artificial avança sobre tarefas técnicas e analíticas, a capacidade de engajar — de fazer pessoas quererem dar o melhor — se torna uma das competências mais difíceis de automatizar e mais valiosas de cultivar. A pergunta que fica para os times de RH e Comunicação Interna: as iniciativas em curso hoje estão construindo esse elo, ou apenas mantendo a dor em silêncio?

FAQ

Qual é a diferença entre engajamento e satisfação do colaborador?

Satisfação indica ausência de insatisfação — o colaborador não tem queixas, mas também não necessariamente se dedica além do mínimo. Engajamento é a disposição ativa de dar o melhor, contribuir com ideias e se comprometer com os resultados da organização. Medir apenas satisfação pode mascarar um cenário de quiet quitting generalizado.

Como o RH pode identificar se a liderança está comprometendo o engajamento da equipe?

Cruzar dados de engajamento por gestor é o primeiro passo. Equipes com índices consistentemente baixos sob o mesmo líder são um sinal claro. Além da pesquisa, conversas individuais com colaboradores (stay interviews) e feedbacks anônimos sobre a liderança ajudam a mapear o problema antes que se torne turnover.

Por onde começar para construir segurança psicológica na equipe?

O ponto de partida mais acessível é o comportamento do próprio líder: admitir publicamente uma dúvida ou erro, perguntar pela opinião da equipe antes de tomar decisões e agradecer feedbacks críticos sem defensividade. Essas atitudes criam permissão para que os demais façam o mesmo.

Programas de voluntariado realmente aumentam o engajamento ou são apenas “mais uma ação”?

Quando bem desenhados — com conexão a um propósito claro e participação voluntária, não obrigatória — os dados mostram impacto real: 74% dos participantes relatam maior engajamento. O segredo está em criar experiências que saiam da rotina e fortaleçam laços interpessoais, não em cumprir protocolo de responsabilidade social.

Como a Comunicação Interna pode apoiar uma cultura de maior engajamento?

Como a Comunicação Interna pode apoiar uma cultura de maior engajamento? R: CI tem papel direto em três frentes: humanizar as histórias internas (mostrando pessoas, não apenas funções), comunicar com transparência sobre erros e aprendizados organizacionais (reforçando segurança psicológica) e dar visibilidade às iniciativas de propósito e comunidade, ampliando o alcance e o senso de pertencimento.

Engajamento é responsabilidade do RH ou do gestor direto?

Engajamento é responsabilidade do RH ou do gestor direto? R: É dos dois, com papéis distintos. O gestor direto tem o maior impacto no engajamento cotidiano — 70% da variação, segundo os dados da palestra. O RH é responsável por criar as condições sistêmicas: ferramentas de escuta, programas de desenvolvimento de liderança, rituais organizacionais e estratégias alinhadas ao que os colaboradores realmente valorizam.

Palestrante: Rafaela Souza — Gerente de Pessoas e Performance Organizacional, Teto Brasil
Evento: Web Summit Rio 2026

We use cookies

We use cookies to improve your experience on this website. You may choose which types of cookies to allow and change your preferences at any time. Disabling cookies may impact your experience on this website. You can learn more by viewing our Cookie Policy.