“Eu sou conversacionista”: o que Lázaro Ramos ensina ao RH sobre IA

o que Lázaro Ramos ensina ao RH sobre IA

Sumário

Lázaro Ramos não é executivo de tecnologia, não dirige uma startup e não tem doutorado em ciência da computação. É ator, diretor, escritor e ativista. E foi exatamente por isso que sua conversa com a jornalista Natuza Nery no Web Summit Rio 2026 soou como um alerta que poucas vozes do setor corporativo têm coragem de dar: a inteligência artificial está chegando rápido demais para que as pessoas consigam se adaptar — e as empresas precisam escolher de que lado vão ficar nessa transição.

A fala de Lázaro não foi de negação nem de entusiasmo ingênuo. Ele declarou-se “conversacionista” — nem otimista, nem pessimista, mas comprometido com o debate permanente sobre ética, afeto e responsabilidade no uso da IA. Para as áreas de RH e Comunicação Interna, esse posicionamento oferece um modelo de maturidade que vale traduzir para a gestão de pessoas.

Quando a velocidade da IA não espera pela curva de aprendizado das pessoas

Um dos momentos mais incisivos da palestra foi sobre o mercado audiovisual, mas a lógica se aplica a qualquer setor. Lázaro descreveu como profissionais de storyboard — que levavam dias para entregar um trabalho — foram substituídos por ferramentas que fazem o mesmo em 20 segundos. O problema não é a tecnologia em si: é a ausência de tempo e suporte para a transição.

💡 Para refletir: Em quantas áreas da sua empresa isso já está acontecendo — silenciosamente?

Para o RH, a mensagem é direta: a velocidade de adoção da IA nas operações raramente é acompanhada por programas de requalificação. O resultado são profissionais tecnicamente deslocados, emocionalmente inseguros e sem perspectiva clara de para onde ir. Lázaro defende períodos e fundos de transição — e espera que empresas e governos assumam essa responsabilidade antes que o problema vire crise.

Viés não é bug, é escolha — e o RH precisa entender isso

Lázaro trouxe ao palco o caso da pesquisadora Joy Buolamwini, que demonstrou falhas sistemáticas de reconhecimento facial para pessoas negras. O ponto não era técnico: era de justiça. Quando sistemas enviesados entram em decisões de infraestrutura — da polícia a processos seletivos —, os erros deixam de ser estatísticos e passam a ter nome, CPF e consequências reais.

Para o RH, isso significa uma pergunta que não pode ser adiada: os sistemas de IA que sua empresa usa em recrutamento, avaliação de desempenho ou análise de engajamento foram auditados para vieses de raça e gênero?

Diversidade nos times que concebem e revisam esses sistemas não é pauta de ESG decorativa — é condição técnica para que o sistema funcione com equidade. Sem pessoas diversas nos processos de auditoria, o algoritmo aprende os preconceitos históricos da empresa e os automatiza em escala.

Protocolo de cuidado: a IA que sua equipe usa sabe quando pedir ajuda?

Um trecho da fala de Lázaro merece atenção especial das áreas de RH e bem-estar corporativo. Ele defendeu regulação para situações de risco: se um usuário — especialmente jovem — sinalizar pensamentos de suicídio ou automutilação em uma conversa com IA, o sistema deve imediatamente encaminhar para suporte profissional. Não responder com mais conteúdo. Não ignorar. Agir.

A pergunta que fica para gestores: as ferramentas de IA que seus colaboradores usam no dia a dia têm esse protocolo? Chatbots de produtividade, assistentes de escrita, plataformas de feedback — nenhuma delas foi concebida para lidar com sofrimento humano. E em um contexto de alta pressão corporativa, a linha entre “desabafo informal” e “sinal de alerta” pode ser tênue.

Estabelecer diretrizes claras de uso e garantir que as ferramentas adotadas pela empresa sigam padrões éticos de segurança não é excesso de cautela. É cuidado básico com pessoas.

O que a Comunicação Interna pode aprender com a crítica de Lázaro ao algoritmo

Lázaro foi preciso ao criticar a lógica dos algoritmos de streaming: eles estudam o que foi sucesso no passado e recomendam mais do mesmo. O resultado são obras esquecíveis, produzidas para performar bem em métricas — e que ninguém lembra um ano depois.

A Comunicação Interna vive risco semelhante quando passa a usar IA para produzir conteúdo em volume. E-mails gerados automaticamente, posts de intranet otimizados por engajamento, vídeos institucionais sem voz autoral — tudo isso pode parecer eficiente e, ao mesmo tempo, esvaziar completamente a cultura da empresa.

💡 Dado: Algoritmos explicam o que funcionou. Eles não antecipam o que vai criar conexão real.

A defesa de Lázaro por narrativas com subtexto, imperfeições e experiências “tatuadas na memória” é, na prática, um argumento pela curadoria humana. Usar IA para ganhar tempo operacional é inteligente. Delegar para ela a alma da comunicação é um risco que afeta diretamente o senso de pertencimento e a confiança das equipes.

“Proibição com conversa”: um modelo de governança que começa em casa

Ao falar sobre como educa seus filhos em relação à IA, Lázaro descreveu uma abordagem que chamou de “proibição com conversa”: não proibir por proibir, mas criar o hábito de perguntar por que e para quê antes de usar. Incentivar que a criança transforme conteúdo escolar em jogo via IA — aprendendo ativamente — em vez de simplesmente copiar respostas prontas.

Essa lógica se traduz diretamente para a governança corporativa. Políticas de uso de IA que se limitam a listas de proibições tendem a ser ignoradas. O que funciona é construir cultura de uso responsável: comitês com poder real de decisão, espaços de conversa sobre dilemas éticos concretos, e lideranças que modelam o comportamento que esperam das equipes.

O direito de desaparecer — e o que isso diz sobre saúde organizacional

Lázaro encerrou sua fala com um sonho que chamou de “direito de desaparecer”: a possibilidade de reduzir a ansiedade constante de ser visto, de ter, de aparecer. Recolocar a experiência humana — e não a performance algorítmica — no centro da vida.

Para o RH, essa é uma provocação sobre o ambiente que as empresas estão construindo. Culturas que medem presença digital, engajamento em plataformas internas e visibilidade constante podem estar, sem perceber, replicando dentro das organizações a mesma lógica de scroll infinito que Lázaro critica nas redes.

A pergunta final que a palestra deixa: sua empresa usa IA para liberar as pessoas — ou para monitorá-las com mais eficiência?

Conclusão

Lázaro Ramos não entrou no Web Summit Rio para dar respostas prontas. Entrou para fazer as perguntas que o setor corporativo ainda evita. Para RH e Comunicação Interna, sua fala é um convite a sair da posição de usuário passivo da tecnologia e assumir o papel de guardião dos valores humanos dentro das organizações. A IA vai continuar avançando. A questão é quem decide, com quais princípios, a que velocidade — e quem arca com o custo quando algo dá errado.

FAQ

O que significa “uso responsável de IA” na prática para o RH?

Significa estabelecer políticas claras antes de adotar ferramentas: quem tem acesso, para quais decisões a IA pode e não pode ser usada, como os dados dos colaboradores são protegidos, e quem responde quando o sistema erra. Não basta usar — é preciso saber por quê e com quais salvaguardas.

Como identificar viés racial ou de gênero em ferramentas de RH baseadas em IA?

Comece pedindo ao fornecedor os relatórios de auditoria de viés. Se não existirem, é um sinal de alerta. Internamente, monitore os outputs por recorte demográfico: o sistema está recomendando promoções, vagas ou treinamentos de forma equitativa entre grupos diferentes? Dados desiguais sem explicação merecem investigação.

Por onde começar a criar uma política de uso de IA para minha área?

Mapeie primeiro as ferramentas que sua equipe já usa — oficiais ou não. Depois, defina três categorias: usos encorajados (ganho de produtividade sem risco ético), usos que precisam de aprovação (decisões sobre pessoas), e usos proibidos (geração de conteúdo sem revisão humana em comunicações sensíveis). Revise a política a cada seis meses.

A Comunicação Interna pode usar IA para produzir conteúdo sem perder autenticidade?

Sim, se a IA for usada para tarefas operacionais — formatar, revisar, traduzir, sugerir pautas — e a curadoria e a voz final ficarem com humanos. O risco está em automatizar o que exige julgamento cultural: tom em momentos de crise, comunicados sobre mudanças sensíveis, narrativas de cultura. Esses precisam de autoria humana.

Como tratar o impacto emocional da IA nas equipes que sentem seus empregos ameaçados?

Com transparência e antecipação. Comunicar mudanças com tempo, explicar o raciocínio, e — principalmente — oferecer caminhos concretos de requalificação. Equipes que sabem o que vem pela frente e recebem suporte real tendem a adaptar-se. As que ficam no silêncio organizacional desenvolvem ansiedade e desengajamento.

O que é o “direito de desaparecer” e como isso se aplica à gestão de pessoas?

É o conceito de Lázaro Ramos para um modo de vida com menos pressão de visibilidade constante. No contexto corporativo, significa questionar se ferramentas de monitoramento de produtividade, engajamento forçado em plataformas internas e métricas de presença digital estão gerando valor real — ou apenas reproduzindo dentro das empresas a mesma ansiedade que as redes sociais causam fora delas.

Palestrante: Lázaro Ramos — Ator, Diretor, Escritor e Ativista
Mediação: Natuza Nery
Evento: Web Summit Rio 2026

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