Chegar ao Vale do Silício logo depois da Páscoa tem um simbolismo curioso, pois existe uma sensação de transição, quase como sair de um ritmo conhecido e entrar em um lugar onde tudo ainda está sendo desenhado.
Meu primeiro contato com isso foi mais literal do que eu esperava, entrei em um carro autônomo da Jaguar, sem motorista, sem ninguém no volante, apenas a tecnologia conduzindo. E, sim, deu uma certa hesitação, a sensação que temos quando nos deparamos com algo realmente novo para nós.
Mas o mais interessante não foi a tecnologia em si, foi a reação, aquela hesitação inicial, a dúvida silenciosa se aquilo realmente era seguro. E aí vem a reflexão inevitável: quantas vezes já passamos por isso antes? Quantas inovações, que hoje são banais, começaram exatamente assim, com um certo receio coletivo?
Para quem trabalha com pessoas, essa sensação não é estranha, ela aparece sempre que uma nova ferramenta é implementada, quando um processo muda, ou quando a empresa decide seguir por um caminho ainda não totalmente testado. O ponto não é evitar esta sensação, mas entender que ele faz parte do processo de evolução.
A abertura do Brazil at Silicon Valley aconteceu dentro da Stanford University, e, ao longo do dia, ficou claro que existe algo naquele ambiente que vai além do discurso sobre inovação.
Caminhar pelos arcos de pedra de Stanford ajuda a entender isso, a arquitetura não parece ter sido pensada apenas para impressionar, ela convida à convivência. Os espaços são abertos, integrados, quase como se tivessem sido desenhados para facilitar encontros inesperados e conversas que não estavam planejadas.
E acredite, isso muda a forma como as ideias circulam.
Durante o evento, as discussões giram naturalmente, em torno de tecnologia, inteligência artificial, novos modelos de negócio, mas, ali dentro, a sensação é outra, a conversa, no fundo, é sobre gente, sobre como criar contextos onde essas ideias consigam nascer e evoluir.
Em um determinado momento, visitei a Hasso Plattner Institute of Design at Stanford, o espaço é conhecido por ser o berço do Design Thinking, mas o que mais chama atenção não é o método em si, é a mentalidade, ficou nítido que existe uma liberdade quase tangível para testar, errar, ajustar e tentar de novo. E isso não acontece por acaso. É construído.
Talvez esse seja um dos pontos mais relevantes para quem lidera RH e Comunicação Interna hoje. A discussão sobre inovação, muitas vezes, fica concentrada em ferramentas ou tendências, mas o que se vê aqui sugere outra coisa: inovação é consequência de ambiente.
Ambiente no sentido mais amplo possível. Espaços físicos, sim, mas também rituais, incentivos, linguagem, liderança, em tudo aquilo que, no dia a dia, define se uma pessoa vai ou não se sentir confortável para propor algo novo, especialmente quando ainda não está totalmente pronto. Tem sido assim com o uso da IA nos últimos 2 anos.
No fim das contas, o Vale do Silício não parece ser sobre tecnologia em si, a tecnologia é quase um subproduto. O que realmente diferencia esse lugar é a forma como as pessoas se conectam, trocam, constroem.
E talvez essa seja a principal provocação que levo desse primeiro dia no Brazil at Silicon Valley: mais do que perguntar quais tendências devemos adotar, vale a pena olhar para dentro e questionar que tipo de ambiente estamos criando.
Porque, se as pessoas não se sentirem seguras para dar o primeiro passo, mesmo com algum medo ou hesitação, dificilmente qualquer inovação, por mais avançada que seja, vai realmente acontecer.

Pioneira em soluções digitais para Employee Experience e CEO da Workhub Digital, transformo a forma como as organizações se conectam com seus colaboradores há mais de 20 anos. Minha trajetória une expertise em tecnologia, liderança e inovação, com foco especial em Modern Work, RH Digital e Comunicação Interna.






