Edit Content

A corrida global pela IA e a estratégia do Brasil

Uma das conversas que mais quero destacar do Brazil at Silicon Valley é uma que, na programação, parecia ser sobre geopolítica e governança de IA, mas que no fundo tocou no ponto mais relevante para quem trabalha com pessoas: a chave para fazer IA funcionar na sua empresa não é a tecnologia. São as pessoas.

Quem disse isso foi Alvin Graylin, autor do livro “The AI Factor” e pesquisador do Stanford Digital Economy Lab, num painel com Bruno Lewicki, especialista em política de IA. E essa frase não foi um clichê jogado no fim da conversa. Foi a conclusão de um estudo de cem páginas sobre o impacto real da IA nas empresas, publicado dias antes do evento.

Aliás, parêntese pessoal: tive a oportunidade de conversar com o Alvin durante o evento, e foi incrível. Sou fã do trabalho dele, e poder trocar ideias sobre a evolução tecnológica e de comportamento humano desde a publicação do livro, como as coisas avançaram até aqui, foi daqueles momentos que fazem valer a viagem. Ainda ganhei uma cópia autografada.

O dado mais impactante que ele trouxe: quando CEOs obtêm ganhos de produtividade com IA, 45% dizem que vão substituir trabalhadores e 19% dizem que vão parar de contratar. Dois terços do pool de trabalho já está sendo impactado com a tecnologia atual. E os modelos que essas empresas estão usando têm um ou dois anos de defasagem, porque leva tempo para IA percorrer o workflow corporativo. Ou seja, o impacto que estamos vendo agora é baseado em tecnologia que já está ultrapassada.

Mas aqui vem o contraponto que muda tudo. As empresas que simplesmente otimizaram uma parte do negócio com IA, mantendo todo o resto igual, não viram resultado significativo. As que redesenharam completamente como o trabalho acontece, repensando estrutura, workflows, incentivos, política interna, viram ganhos de produtividade de 50%, 100%, algumas de várias centenas por cento.

Para RH e comunicação interna, essa é a distinção que define se a área vai ser protagonista ou espectadora. Implementar uma ferramenta de IA no recrutamento ou na comunicação e manter tudo mais igual é o equivalente a colocar um motor de Ferrari num fusca. Não é ali que o valor está. O valor está em repensar o trabalho inteiro.

O Bruno trouxe uma perspectiva complementar a partir da sua experiência recente no Brasil. Ele passou duas semanas em São Paulo, Rio e Brasília conversando com CEOs, fundadores e governo, e classificou as empresas em quatro estágios. No primeiro, ninguém nega que IA é real. No segundo, a pergunta é como fazer as pessoas adotarem. No terceiro, como embutir IA na cultura, nos dados, nos processos. E no quarto, como reimaginar o setor inteiro e o lugar da empresa no mundo.

A maioria das empresas brasileiras, segundo ele, está travada no terceiro estágio. Sabe que precisa ir além da adoção individual, mas ainda não conseguiu fazer IA virar parte do tecido da organização. E pouquíssimas estão dedicando tempo ao quarto estágio: pensar como o mundo inteiro muda e o que isso significa para o negócio.

Para comunicação interna, o paralelo é exato. A maioria das áreas está no estágio dois: tentando fazer as pessoas usarem as ferramentas. Algumas estão no três: tentando integrar IA nos processos de comunicação. Quase nenhuma está no quatro: repensando o que comunicação interna significa num mundo onde agentes de IA são colegas de trabalho e a informação flui por caminhos completamente novos.

Sobre o cenário global, o Alvin trouxe dados que colocam o Brasil numa posição curiosa. O país tem 30% de trabalhadores white collar, contra 60-65% nos EUA. Isso significa que a disrupção por IA no emprego vai ser muito mais violenta nos Estados Unidos do que aqui. E os EUA não têm rede de proteção social nem poupança significativa para amortecer o impacto. O Brasil, paradoxalmente, pode ter mais tempo e espaço para fazer a transição de forma inteligente.

Mas só se agir. Porque, como o Bruno alertou, o Brasil tem ossos bons. Está no top 3 de usuários semanais da OpenAI no mundo. Tem Pix, tem Gov.br, tem mais de 170 milhões de usuários em plataformas digitais públicas. A adoção é enorme. O que falta é transformar adoção em capacidade. E isso passa por investimento em infraestrutura de computação, em energia, e principalmente em gente. Formação, requalificação, educação.

O Alvin encerrou com algo que deveria ser o enquadramento de toda conversa sobre IA: a palavra que está faltando no debate é cooperação. Tudo gira em torno de corrida, de vencer, de jogo de soma zero. E a conclusão do livro dele é que para essa tecnologia ser realmente benéfica, precisa ser tratada como bem público. Nações compartilhando recursos, dados, computação e, principalmente, benefícios.

Para quem lidera pessoas, a tradução interna é a mesma. IA dentro da organização não pode ser uma corrida entre áreas para ver quem implementa primeiro. Precisa ser um esforço colaborativo, com visão compartilhada, recursos compartilhados e benefícios distribuídos. Senão, vira disputa interna que não gera valor para ninguém.

Palestra: The AI race: who’s really competing, who gets left behind, and what Brazil should do about it
Alvin Graylin + Bruno Lewicki + Rodrigo Schmidt
HAI + OpenAI + VettoAI

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Você também pode gostar: