Três pessoas de RH. Uma empresa inteira. Funciona.

Três pessoas de RH. Uma empresa inteira. Funciona.

Sumário

Cleber Morais, Diretor-Geral da Amazon Web Services (AWS) no Brasil, subiu ao palco do Web Summit Rio 2026 com uma afirmação que resume o momento: não é questão de se adotar agentes de IA, mas de quando e como.

Em entrevista exclusiva à Workhub, ele foi ainda mais direto sobre o impacto para RH — e revelou um dado que provoca: a AWS Brasil tem três pessoas na área de recursos humanos. Não é ausência de estratégia. É consequência de uma transformação que empoderou cada ponta da organização a tomar decisões com mais velocidade e dados.

O painel, mediado por Álvaro Lemi, colunista de tecnologia da Veja, percorreu os três eixos que definem a era dos agentes: produtividade individual, transformação de processos de negócio e o novo papel das pessoas num mundo onde máquinas orquestram e são orquestradas. Para gestores de RH e Comunicação Interna, o recado foi claro — e urgente.

A era dos agentes não perdoa quem espera

Morais descreveu o momento atual como um “tsunami tecnológico” e não usou o termo como metáfora vazia. Na AWS, todos os funcionários têm treinamento mensal obrigatório em IA, com prova e nota mínima de oito. Mesmo sendo uma empresa de tecnologia, a adoção precisa ser incentivada ativamente — o que diz muito sobre o desafio que organizações de outros setores enfrentam.

A mensagem para RH é direta: esperar que a adoção aconteça por conta própria é uma aposta perdida.

Quem não usa agentes para aumentar sua produtividade corre o risco de ser substituído não pela IA, mas por profissionais que a dominam. “Aquelas pessoas que não utilizavam agentes, que aumentavam a sua produtividade — essas sim formam risco de substituição”, disse Morais.

Para Comunicação Interna, o desafio equivalente é garantir que a narrativa interna sobre IA seja de capacitação e oportunidade, não de ameaça. A forma como a empresa comunica essa transformação define em grande parte a velocidade e a qualidade da adoção.

💡 Dado: na AWS Brasil, o treinamento em IA é mensal, obrigatório para toda a população e exige aprovação com nota acima de 8. A cultura de adoção tecnológica não acontece por osmose — ela é estruturada e cobrada.

Processos, pessoas e produtivização: o framework dos 3Ps

Para empresas que ainda não sabem por onde começar, Morais apresentou um modelo prático: os 3Ps.

O primeiro é pessoas — usar agentes para aumentar a produtividade individual, liberando tempo para atividades de maior valor.

O segundo é processos — revisar fluxos desenhados há décadas e otimizá-los com IA, ganhando velocidade e autonomia decisória.

O terceiro P, produtivização (processo de transformar serviços, ideias ou projetos em produtos padronizados, escaláveis e prontos para o mercado), é onde o salto mais significativo acontece. Morais citou o caso da Elfa, distribuidora de medicamentos que recebia cotações via WhatsApp e e-mail, muitas vezes sem informação suficiente para identificar o produto correto. Com agentes, o tempo de resposta caiu de 10 horas para 10 minutos — e o volume de vendas triplicou.

O que chama atenção no caso não é apenas a eficiência. É que a solução virou produto: outros distribuidores de setores completamente diferentes reconheceram a mesma dor e passaram a querer a mesma solução. Para RH, o paralelo é imediato — processos como triagem de candidatos, onboarding, gestão de afastamentos e pesquisas de clima têm a mesma estrutura repetitiva e alto volume que tornam a automação via agentes particularmente eficaz.

“Eu não preciso chegar a um ano depois, ou seis meses depois, para saber que o meu funcionário está insatisfeito ou que o meu gerente é um mau gerente.”

O RH que empodera em vez de centralizar

Na entrevista exclusiva, Morais foi além do palco. Questionado sobre o que diria a CHROs hoje, ele resumiu em uma frase: “O RH tradicional não existe mais.” O modelo que concentra decisões numa área central está sendo substituído por um onde cada gestor, com as ferramentas certas, consegue tomar decisões de pessoas em tempo real — sem esperar o ciclo anual de pesquisa de clima.

Ele deu um exemplo concreto da AWS: todos os dias, uma pergunta é enviada automaticamente a cada funcionário. O sistema gera inteligência a partir das respostas e sinaliza problemas antes que virem crise. “Eu não preciso chegar a um ano depois, ou seis meses depois, para saber que o meu funcionário está insatisfeito ou que o meu gerente é um mau gerente.”

Esse modelo — escuta contínua, dados em tempo real, decisão distribuída — é o que explica por que a AWS Brasil opera com três pessoas em RH. Não porque a área perdeu importância, mas porque ela foi redesenhada para empoderar em vez de centralizar.

💡 Dado: a AWS Brasil tem três profissionais de RH para toda a operação nacional. O modelo é sustentado por escuta contínua automatizada, dados em tempo real e gestores capacitados para decisões de pessoas sem depender de uma área central.

A disputa pelo dono da bola — e por que RH precisa entrar nessa

Um dos pontos mais estratégicos do painel foi a discussão sobre quem controla a IA dentro das empresas. Historicamente, essa agenda ficou com CIOs e CTOs. Mas Morais observa uma mudança clara: áreas de negócio — jurídico, marketing, RH — estão cada vez mais desenvolvendo suas próprias soluções, sem depender de uma equipe técnica centralizada.

Ele citou o projeto LegalX, em que advogados construíram um agente para leitura e análise de processos jurídicos. E mencionou sua própria filha, médica, que desenvolveu sozinha um sistema de gestão para sua clínica. O ponto não é tecnológico — é de poder. Quem conhece a dor do negócio está em melhor posição para construir a solução do que quem conhece apenas a tecnologia.

Para RH e Comunicação Interna, essa é uma janela de protagonismo que não deve ser desperdiçada. As áreas que entenderem seus próprios processos e souberem articular isso em soluções com agentes vão ganhar autonomia, relevância e capacidade de impacto que nunca tiveram antes.

O próximo capítulo não é sobre substituição — é sobre reinvenção

Morais não nega que a IA vai reformular o mercado de trabalho. Mas recusa o enquadramento do medo. O que ele vê é uma redistribuição: quem usa agentes ganha produtividade e espaço para inovar; quem ignora fica para trás. E para quem perde espaço no emprego formal, a IA reduziu o custo de entrada no empreendedorismo a um patamar histórico. “Sonhar em ter sua empresa ganhou uma exponencialidade gigantesca.”

Para RH e Comunicação Interna, a pergunta que fica não é se os agentes vão mudar a forma de trabalhar — isso já está acontecendo. A pergunta é se a área vai liderar essa transformação dentro da organização ou vai chegar atrasada, mais uma vez, depois que as decisões já foram tomadas por outros.

FAQ

Por onde uma área de RH deve começar com agentes de IA?

Pelo mapeamento de processos de alto volume e baixa variabilidade: triagem de candidatos, onboarding, pesquisas de clima, gestão de afastamentos. O modelo dos 3Ps de Morais é um guia útil — começar por produtividade individual, depois otimizar processos existentes, e só então pensar em criar soluções que virem produto ou serviço.

Como equilibrar automação e toque humano na gestão de pessoas?

O modelo da AWS sugere que a IA cuida da escuta contínua e da sinalização de problemas, enquanto os gestores atuam nas conversas e decisões que exigem contexto e empatia. A chave é redesenhar o fluxo: IA para volume e velocidade, humano para julgamento e relacionamento.

É possível ter um RH enxuto sem perder qualidade na gestão de pessoas?

O caso da AWS Brasil — três pessoas de RH para toda a operação nacional — mostra que sim, desde que o modelo seja baseado em dados em tempo real, escuta contínua e gestores capacitados para decisões de pessoas. Não é sobre cortar headcount, é sobre redistribuir responsabilidade com suporte tecnológico adequado.

Como a Comunicação Interna pode apoiar a adoção de agentes de IA?

Construindo uma narrativa de capacitação, não de ameaça. Isso inclui comunicar casos reais de ganho de produtividade dentro da empresa, dar visibilidade aos treinamentos disponíveis e criar canais para que colaboradores compartilhem suas próprias experiências com IA — transformando adoção individual em aprendizado coletivo.

O RH corre risco de perder relevância para outras áreas na agenda de IA?

Sim, se ficar esperando. A tendência observada por Morais é de que áreas de negócio estão desenvolvendo suas próprias soluções sem depender de TI ou RH. A resposta é entrar nessa disputa — conhecendo os próprios processos profundamente e construindo soluções que só quem vive a dor do RH consegue desenhar bem.

Como criar um sistema de escuta contínua sem sobrecarregar os colaboradores?

O modelo da AWS usa perguntas diárias curtas, geradas por inteligência artificial com base no contexto de cada funcionário. O segredo está na brevidade e na relevância — uma pergunta por dia, personalizada, é menos invasiva e mais eficaz do que uma pesquisa anual extensa. A tecnologia faz a curadoria; o gestor age sobre os sinais.


Cleber Morais — Diretor-Geral, Amazon Web Services (AWS) no Brasil
Entrevistador: Álvaro Lemi — colunista, Veja
Evento: Web Summit Rio 2026

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