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Empreendedorismo, inovação e resiliência

luciano huck bsv 2026

Existe uma história que o Luciano contou no palco do Brazil at Silicon Valley que não saiu da minha cabeça.

É sobre o Roberto, terceira geração de madeireiros ilegais no Rio Negro, Amazônia. Um homem que derrubou mais de 60 mil árvores ao longo da vida. Quando a fiscalização ambiental apertou, alguém sugeriu que ele tentasse ecoturismo. Ele achou que era piada. Mas tentou. E em um único dia, faturou quase o que ganhava em um mês inteiro.

Hoje a comunidade dele tem escola reformada, restaurantes, pousadas. E a frase que ele disse ao Luciano, sentado na frente de uma árvore de 50 metros, foi: “Antes, quando eu olhava para uma árvore assim, eu via preço. Hoje, eu vejo valor.”

Preço e valor. Essa distinção atravessou toda a conversa daquela tarde, que juntou no mesmo palco a Luana Lopes, fundadora da Kalshi, e o Luciano, que há mais de duas décadas conta as histórias do Brasil que a gente não vê.

A Luana tem 29 anos, foi bailarina profissional na Áustria antes de ir para o MIT e fundar uma empresa de mercados de previsão que hoje vale 22 bilhões de dólares. E o caminho até aqui não teve nada de óbvio. Foram quatro anos tentando convencer o governo americano a regulamentar o produto. Sessenta e cinco advogados consultados. Todos disseram não. Até que, por uma conexão brasileira, surgiu uma reunião. Uma única reunião. E a partir dela, quatro anos de idas e vindas com o regulador, respondendo lista atrás de lista, sem aceitar um “não” que não viesse com uma razão convincente.

E mesmo depois da aprovação, a empresa não decolou imediatamente. Foram mais anos de crescimento lento. A virada real só aconteceu nos últimos dezoito meses.

Para quem trabalha com pessoas, essa trajetória ensina mais do que qualquer framework de inovação.

A primeira lição é sobre disciplina como infraestrutura. A Luana trouxe isso do balé: não importa o quão ruim foi o seu dia, você precisa estar lá no dia seguinte e treinar de novo. E o Luciano reforçou com uma imagem simples: escovar os dentes dez vezes hoje não vai manter seus dentes limpos amanhã. Mas escovar todo dia, sim. Para comunicação interna, a reflexão é direta: consistência importa mais do que campanhas. A cultura se constrói no que se repete, não no que se anuncia uma vez.

A segunda é sobre gratificação adiada. A Luana treinou por mais de um ano para uma hora no palco. Na Kalshi, trabalhou quatro anos antes de lançar um produto. Quantas organizações conseguem manter times engajados em projetos que não dão resultado visível no curto prazo? Esse é um desafio real de gestão de pessoas: como criar um ambiente onde as pessoas aguentem o processo sem perder o sentido?

A terceira é sobre execução acima de discurso. O Luciano foi direto: “Nada me incomoda mais do que pessoas que nunca começaram nada e vivem vendendo curso.” E completou com algo que vale repetir: criatividade e iniciativa muita gente tem. Execução, pouquíssimos. Para RH e comunicação interna, isso é um filtro poderoso na hora de pensar programas de desenvolvimento, cultura de inovação e até critérios de liderança.

E tem uma quarta lição, talvez a mais incômoda. O Luciano trouxe um dado: 85% dos brasileiros precisam de mais de um trabalho para fechar o mês. E 83% querem ter o próprio negócio, não por vocação empreendedora, mas para parar de lutar. Ele chamou isso de “empreendedorismo de exaustão”. Isso muda completamente a conversa sobre engajamento e retenção nas empresas. Quando a base da pirâmide empreende por sobrevivência, o papel das organizações que empregam essas pessoas ganha outro peso.

A pergunta que ficou, e que o Luciano respondeu em duas palavras quando perguntaram o que esse público privilegiado do Vale do Silício poderia fazer pelo Brasil, foi simplesmente: “Voltem.”

Voltem. Levem o conhecimento de volta. Conectem os mundos.

Para quem lidera comunicação interna e gestão de pessoas, a provocação é parecida: a sua organização está conectando mundos ou apenas falando para os mesmos de sempre?

Palestra: Building what Doesn’t Exist
Luana Lara + Luciano Huck (online)
Kalshi + Globo

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