A IA na comunicação interna deixou de ser apenas uma ferramenta para produzir textos mais rápido. Na palestra “From AI Experiments to a New Way of Working”, Viktorija Pirštelė, Head of Corporate Communication da Girteka, mostrou como a inteligência artificial passou a apoiar sua rotina — e por que esse apoio exige ainda mais atenção ao julgamento, à precisão e às relações humanas.
A experiência foi pessoal e concreta. Pirštelė contou que sentiu medo de ficar para trás diante da velocidade com que surgiam novas ferramentas. Depois, quando sua equipe de comunicação interna passou de sete pessoas para duas, a IA se tornou uma assistente para gerar ideias, preparar textos, criar locuções e resumir conteúdos. A Girteka se apresenta como a maior empresa europeia de logística com frota própria.
A mudança, porém, não cabe em uma história simples de substituição. “Não demitimos uma única pessoa por causa da IA. Mas acredito que deixamos de contratar para algumas posições”, relatou Pirštelė. Sua palestra tratou justamente da diferença entre aproveitar uma nova capacidade de trabalho e ignorar as consequências que ela pode trazer para as pessoas.
IA na comunicação interna amplia possibilidades
Na Girteka, colaboradores falam 24 idiomas, segundo os dados apresentados pela palestrante. Nesse contexto, ferramentas de IA também ajudaram pessoas que antes hesitavam em escrever ou publicar a organizar suas ideias e se expressar com mais segurança. Pirštelė observou um aumento das contribuições em redes sociais internas e no LinkedIn.
Esse é um ganho que vai além da produtividade de uma equipe pequena. Se mais profissionais conseguem compartilhar experiências e conhecimentos, a comunicação deixa de depender exclusivamente da área responsável pelos canais corporativos.
Mas ampliar o volume de conteúdo não garante uma comunicação melhor. Pirštelė organizou seu alerta em quatro armadilhas: delegar decisões à IA, enfraquecer a conexão humana, confiar em resultados sem verificá-los e perder de vista os riscos mais amplos da tecnologia.
Julgamento é um músculo
A primeira armadilha aparece nas pequenas decisões do dia a dia. Pedir à IA uma segunda opinião pode ser útil; recorrer a ela antes de toda escolha pode enfraquecer o hábito de pensar por conta própria.
“Julgamento é um músculo”, afirmou Pirštelė. Antes de abrir uma ferramenta, ela sugeriu distinguir duas intenções: estou buscando uma resposta que me ajude a enxergar melhor o problema ou apenas uma validação para algo que já decidi?
Isso não significa trabalhar sem IA. Significa reservar às pessoas a tarefa de definir objetivos, avaliar alternativas e assumir decisões. Uma forma de exercitar essa capacidade é formular primeiro uma hipótese própria e só depois usar a ferramenta para questioná-la, identificar lacunas ou oferecer outros caminhos.
Conexão não pode virar uma cadeia de automações
A segunda armadilha afeta a relação entre quem escreve e quem lê. Pirštelė descreveu uma sequência possível: uma pessoa pede à IA que produza uma mensagem; outra pede à IA que a resuma. O resultado pode ser eficiente, mas reduzir a comunicação a uma troca entre sistemas, com pouco encontro real entre as pessoas.
Segundo a palestrante, a percepção de sinceridade pode cair pela metade quando o público sabe que uma mensagem foi gerada por IA. O resumo da palestra não identifica a pesquisa ou o contexto desse número; por isso, ele não deve ser tratado como uma regra geral. Há, contudo, estudos que encontraram menor percepção de autenticidade em determinados tipos de mensagem emocional atribuída à IA — efeito que varia conforme o conteúdo e a forma de uso da ferramenta.
Para a comunicação interna, a distinção importa. A IA pode ajudar a revisar a clareza de um aviso operacional. Já uma mensagem sobre uma mudança difícil, uma conquista da equipe ou uma preocupação trazida pelos colaboradores pode exigir que a voz de quem lidera seja reconhecível e que exista espaço para uma conversa de verdade.
Quanto mais fácil fica produzir conteúdo genérico, mais valioso se torna comunicar com contexto, intenção e estilo próprio.
Resultado convincente não é resultado correto
A terceira armadilha é confiar na aparência de precisão. Pirštelė mostrou uma imagem falsa, mas realista, de caminhões da Girteka que circulou acompanhada de informações incorretas. A qualidade visual tornava o material plausível; não o tornava verdadeiro.
“Um humano sempre verifica. A máquina não é burra, mas a assinatura será sua ou da sua liderança”, afirmou.
Na apresentação, ela citou que 66% das pessoas usam resultados de IA sem conferir sua precisão. O dado corresponde a uma pesquisa global sobre confiança e uso da tecnologia, que registrou essa proporção entre os respondentes. Para uma equipe de comunicação, o cuidado precisa entrar no fluxo editorial: verificar fatos, números, imagens, fontes e contexto antes de publicar ou tomar decisões com base em uma resposta gerada.
Essa revisão não é um detalhe acrescentado ao final. Quando uma informação circula em nome da empresa, a responsabilidade continua sendo de quem a aprovou.
Os riscos vão além de cada publicação
A quarta armadilha amplia a discussão para segurança, controle e impactos econômicos. Pirštelė mencionou a possibilidade de ataques cibernéticos apoiados por IA e situações em que sistemas poderosos podem ser usados de maneiras difíceis de antecipar.
Ela não apresentou esses riscos como motivo para abandonar a tecnologia. O ponto foi evitar que o entusiasmo com tarefas mais rápidas diminua a atenção a consequências maiores — especialmente quando ferramentas passam a participar de mais processos e decisões.
“Não tenho medo de deixar de conhecer mais uma ferramenta. Tenho medo do que ela pode mudar no mundo e de perdermos aquilo que é realmente importante: pensamento crítico, pessoas, conexão e humanidade”, disse.
Aprender sobre IA faz parte do trabalho
Na Girteka, a educação sobre IA não ficou restrita a uma capacitação isolada. Pirštelė relatou que o assunto aparece na integração de novos colaboradores, nas discussões de estratégia e nas falas de lideranças, apresentado tanto por suas possibilidades quanto por seus riscos.
Essa constância ajuda a criar um ambiente em que as pessoas podem dizer como usam IA, pedir orientação e discutir limites. Também permite que o aprendizado acompanhe mudanças nas ferramentas, em vez de depender de uma única apresentação que ficará desatualizada.
Para as equipes de comunicação, a abordagem sugere incorporar perguntas simples à rotina: por que usar IA nesta tarefa? Quem vai conferir o resultado? A mensagem ainda soa como quem precisa dizê-la? Existe uma conversa humana que não deveria ser substituída?
A tecnologia já mudou a maneira de trabalhar, observou Pirštelė. Na experiência que compartilhou, a melhor resposta não foi tentar acompanhar cada novidade nem entregar tudo à automação. Foi usar a IA como apoio enquanto preservava a capacidade de decidir, verificar e se conectar com as pessoas.




