Os limites éticos da tecnologia: o que um padre e um médico têm a dizer a quem lidera pessoas
AI Experience Brasil 2026

Os limites éticos da tecnologia: o que um padre e um médico têm a dizer a quem lidera pessoas

A Workhub está no AI Experience Brasil e trouxe os principais aprendizados do painel “Os limites éticos da tecnologia: o que nos torna humanos” para lideranças de RH.

Vinicius Teixeira · 29 out 2026 · 7 min de leitura

Hoje, 29 de outubro, a Workhub está no AI Experience Brasil acompanhando de perto as conversas que vão moldar o trabalho nos próximos anos. Entre painéis sobre modelos, produtividade e automação, um deles chamou nossa atenção por fazer a pergunta que quase ninguém faz em eventos de tecnologia: se a IA consegue executar cada vez mais funções humanas, o que continua dando valor a uma pessoa?

O painel “Os limites éticos da tecnologia: o que nos torna humanos” reuniu o Padre Mairon Gavlik, que conduziu a reflexão filosófica e teológica sobre a pessoa humana, e o Dr. João Burlamaqui, médico que trouxe para o palco casos clínicos, bioética e os dilemas reais de quem já trabalha lado a lado com algoritmos e robôs. O resultado foi uma conversa com muito a dizer para CHROs, lideranças de RH e pessoas responsáveis por estratégias de IA nas empresas.

Painel Os limites éticos da tecnologia, com Padre Mairon Gavlik e Dr. João Burlamaqui, no AI Experience Brasil 2026
Padre Mairon Gavlik e Dr. João Burlamaqui no painel “Os limites éticos da tecnologia: o que nos torna humanos”.

A pergunta que abriu o debate

O Dr. João Burlamaqui partiu de uma observação simples. Ninguém nasce com todas as capacidades, e com o envelhecimento vamos perdendo algumas delas. Se o valor de alguém acompanhasse o quanto essa pessoa produz, teríamos uma escala de valor humano baseada em performance. E muitas organizações operam exatamente assim, ainda que sem dizer em voz alta.

A resposta do Padre Mairon Gavlik deu o tom do painel: nossas capacidades revelam quem somos, mas ninguém se resume ao que consegue fazer. Falar, pensar, trabalhar e se relacionar são expressões da pessoa. A dignidade vem antes de tudo isso.

Para o RH: vale olhar com honestidade para os sistemas de avaliação de desempenho. Métricas são indispensáveis para gerir resultados. O problema começa quando, na prática, elas passam a medir o valor da pessoa, e não a entrega dela.

Decisão e responsabilidade não se terceirizam

Um dos exemplos mais lembrados veio do cotidiano paulistano. Quem esquece o dia do rodízio e leva uma multa pode até transferir os pontos da carteira para outra pessoa. A responsabilidade moral pela escolha, porém, continua sendo de quem decidiu. Para o Padre Mairon, essa capacidade de decidir livremente e responder pelas consequências é uma das marcas mais claras daquilo que nos torna humanos, e nenhum algoritmo externo consegue medi-la por completo.

Para o RH: em qualquer processo apoiado por IA (triagem de candidaturas, promoções, desligamentos, avaliação de risco de turnover), a pergunta de governança precisa estar respondida antes da implantação: quem assina a decisão? Se a resposta for “o sistema”, há um problema de desenho.

A IA correlaciona padrões. Pessoas confrontam com a realidade

O Dr. João contou um caso de anos atrás. Um paciente pesquisador chegou ao consultório descrevendo com perfeição uma doença, o tratamento indicado e o prazo esperado de melhora, e queria entender por que não tinha melhorado. A descrição era impecável. Faltava o que a medicina chama de hipótese diagnóstica: examinar a pessoa e verificar se aquela história coerente de fato correspondia ao que estava acontecendo.

Segundo ele, a IA faz muito bem a primeira parte, organizar sintomas e referências. A segunda, julgar se aquilo é verdadeiro diante da realidade concreta, segue dependendo de alguém que observa, examina e assume a conclusão.

Para o RH: people analytics e ferramentas de IA geram hipóteses muito úteis. Um alerta de risco de saída, um ranking de candidaturas ou um diagnóstico de clima pedem sempre a etapa de conferência com a realidade: conversar, ouvir, entender o contexto que o dado não captura.

Ninguém é substituível, nem entre pessoas parecidas

Dois exemplos emocionaram a plateia. O primeiro, trazido pelo Dr. João, foi o de um pai com filhos gêmeos, geneticamente idênticos: se um deles morre, o outro não ocupa aquele lugar. O segundo veio do Padre Mairon, que se dirigiu ao próprio Dr. João, pai de quatro filhos: quem perde um filho não sente que ainda tem “75% de filho”. Cada pessoa é única e irrepetível.

Para o RH: essa lente muda a forma de conduzir reestruturações, planos de sucessão e projetos de automação. Funções podem ser redesenhadas. Repertório, relações e contexto que cada pessoa carrega, nem tanto. Tratar gente como peça intercambiável costuma custar caro em conhecimento perdido e em confiança.

O risco da lógica utilitarista

O debate entrou num território mais sensível quando os dois discutiram visões que classificam pessoas em níveis conforme suas capacidades. O Padre Mairon citou relatos de países onde a eutanásia é legalizada há décadas e onde pessoas idosas passaram a sentir medo de ir ao hospital, pressionadas pela ideia de que se tornaram um peso para a família e para a sociedade.

Para o RH: a mesma lógica, em escala menor, aparece nas empresas. Profissionais com mais idade, pessoas com deficiência, quem volta de afastamento ou de licença parental podem sentir que valem menos porque “rendem menos” por um período. Uma cultura que só reconhece performance comunica isso, mesmo sem querer.

Até onde a autonomia das máquinas deve ir

O Dr. João relatou o avanço da robótica cirúrgica, com sistemas capazes de conduzir etapas de procedimentos quase sem intervenção humana, e fez a pergunta que interessa a qualquer liderança: e se algo sair do previsto numa etapa crítica? Quem decide? A posição do Padre Mairon foi clara. Robôs executam a programação que receberam. Ética e deliberação moral são próprias das pessoas, e a IA tem lugar como suporte.

Para o RH: vale mapear, em cada processo automatizado, quais etapas são críticas e exigem decisão humana obrigatória. Esse mapa é um dos documentos mais importantes de uma política de IA responsável.

Aprender ou terceirizar o aprendizado

Para fechar, o Dr. João trouxe uma cena de casa. O filho mais novo reclamava da dificuldade de fazer contas com dois algarismos, e a irmã mais velha resolveu na hora: “só colocar no chat”. A tarefa seria entregue. O aprendizado, não.

Para o RH: programas de desenvolvimento e upskilling precisam distinguir quando a IA amplia a competência das pessoas e quando apenas entrega a resposta pronta e atrofia a capacidade que a empresa precisa ter no futuro.

O que levar para a agenda de RH

O painel deixou algumas perguntas que valem para qualquer comitê de IA ou de pessoas:

  • Nossas métricas avaliam entregas ou acabam definindo o valor de quem as entrega?
  • Em cada decisão apoiada por IA, está claro qual pessoa responde pelo resultado?
  • Quais etapas dos nossos processos exigem, obrigatoriamente, julgamento humano?
  • Nossa adoção de IA desenvolve as pessoas ou substitui o aprendizado delas?
  • Como comunicamos tudo isso para que as pessoas colaboradoras confiem na transformação, em vez de temê-la?

Essa última pergunta é a que mais nos move na Workhub. A forma como uma empresa comunica a chegada da IA define se ela será vista como apoio ou como ameaça. Tecnologia que potencializa pessoas começa por uma comunicação interna clara, transparente e feita para todo mundo.

Seguimos no AI Experience Brasil e trazemos mais aprendizados nos próximos painéis.

#AI Experience Brasil 2026#Cobertura de evento#Ética e IA#Liderança de RH#Governança de IA
Escrito por

Vinicius Teixeira

Head de Growth da Workhub

Head de Growth com experiência em diversas empresas como revista Exame, Agroboard entre outros.

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