IA desgovernada: do hype à falta de decisão
AI Experience Brasil 2026

IA desgovernada: do hype à falta de decisão

No AI Experience Brasil, Andréa Migliori, founder e CEO da Workhub, mostrou por que tantos projetos de IA travam nas empresas e o que muda quando governança, métricas e pessoas entram no centro da estratégia.

Vinicius Teixeira · 29 out 2026 · 9 min de leitura

A cobertura da Workhub no AI Experience Brasil, neste 29 de outubro, também teve um momento em casa. Andréa Migliori, nossa founder e CEO, subiu ao palco com a palestra “IA desgovernada: do hype à falta de decisão” e propôs um exercício pouco comum em eventos de tecnologia: em vez de apresentar ferramentas, olhar para o que fica escondido nas entrelinhas das empresas que correram para adotar IA.

A proposta, nas palavras dela, era trazer mais perguntas do que respostas. E as perguntas certas, para quem lidera RH, Comunicação Interna e estratégias de IA, são justamente as que quase ninguém está fazendo.

Plateia lotada na palestra de Andréa Migliori no AI Experience Brasil 2026
Plateia acompanha a palestra “IA desgovernada: do hype à falta de decisão”.

Os ciclos do hype

Andréa começou relembrando as fases que a maioria das empresas atravessou. Primeiro veio o medo de que a IA tiraria empregos. Depois, a corrida para usar IA a qualquer custo, embalada pela ideia de que perderia espaço quem não usasse melhor que os outros. Em seguida, a constatação de que a IA amplifica o que já existe na empresa: boas decisões ficam melhores e mais rápidas, e más decisões também se multiplicam na mesma velocidade.

Agora, segundo ela, chegamos à fase dos agentes, em que a pergunta mais ouvida nos corredores é “quantos agentes vocês têm?”. Para Andréa, o momento pede o movimento contrário: parar, medir e alinhar.

Para o RH: a quantidade de agentes ou de pilotos em andamento diz muito pouco sobre maturidade. O indicador que importa é quanto valor eles geram, com que custo e com que risco.

Repertório é o que permite questionar

Um dos alertas mais fortes da palestra foi sobre a terceirização de análises e decisões. Resumir e-mails, montar relatórios, analisar dados e dizer o que precisa ser feito: tudo isso já pode ser delegado a agentes. O risco aparece quando as pessoas deixam de ter repertório para avaliar o que recebem.

Para Andréa, a questão central nunca foi usar mais ou menos IA. O ponto é como a empresa pensa esse uso em grupo, com repertório e limites.

Para o RH: programas de desenvolvimento precisam proteger o tempo e o espaço para que as pessoas continuem construindo conhecimento próprio. Quem passa o dia inteiro recebendo respostas prontas perde a capacidade de perceber quando a resposta está errada.

Risco precisa ter tamanho

Andréa criticou o que chamou de teatro da inovação. De um lado, empresas que liberam tudo e dizem que depois veem o que acontece. De outro, empresas que se declaram AI-first, mas na prática só bloqueiam, restringem e chamam isso de estratégia. Para ela, essa segunda postura é gestão de risco com roupa de inovação.

A saída passa por qualificar o risco. “Vazamento de dados” é uma resposta genérica demais. A pergunta certa envolve quais dados, qual impacto e qual o tamanho do dano. Os dados de um funil de inbound têm um peso; dados estratégicos de uma grande marca, outro completamente diferente.

Para o RH: classificar os dados de pessoas por criticidade (públicos, internos, sensíveis) permite liberar IA com segurança onde o risco é baixo e reforçar controles onde ele é alto, em vez de proibir tudo ou liberar tudo.

Andréa Migliori fala sobre shadow AI no AI Experience Brasil 2026
Andréa Migliori no palco: “Isso não é rebeldia! (é sintoma!)”.

Shadow AI é sintoma da empresa

Quando a empresa espera que as pessoas façam algo com IA, mas não oferece caminhos oficiais, diretrizes claras nem ferramentas adequadas, as pessoas improvisam. Baixam documentos, usam contas pessoais, levam trabalho para casa. É o fenômeno do shadow AI.

Andréa foi direta: tratar isso como rebeldia, a ponto de demitir quem improvisou, ignora a causa. O shadow AI revela lacunas de orientação e suporte da própria organização.

Para o RH: antes de punir, vale perguntar por que as pessoas precisaram buscar alternativas. A resposta costuma apontar para ferramentas inadequadas, regras pouco claras ou falta de comunicação.

Desgoverno também existe com política no papel

Um dos pontos mais provocadores da palestra: uma empresa pode ter política de IA, política de gestão de risco e comitê formado, e ainda assim estar desgovernada. Desgoverno, para Andréa, é operar sem respeito, sem feedback, sem limites, sem guardrails e sem clareza sobre o resultado esperado.

Governança de verdade é viva e iterativa, com ciclos de feedback e ajustes constantes. E ela precisa ser puxada pela liderança, porque envolve decisões de negócio, de estratégia, de ética e de pessoas ao mesmo tempo. Deixar esse tema só com TI ou só com segurança da informação é garantia de desalinhamento.

Slide com o dado de que 95% dos projetos pilotos ficam sem retorno financeiro mensurável
Dado apresentado na palestra: 95% dos projetos pilotos ficam sem retorno financeiro mensurável (MIT, The GenAI Divide: State of AI in Business 2025).

Por que os pilotos falham

Andréa listou as razões mais comuns. Agentes desconectados do contexto da empresa, sem acesso a dados reais e fora do fluxo de trabalho. Expectativas de mágica por parte da liderança, que cobra velocidade sem entender como a coisa funciona. Falta de treinamento. E, sobretudo, ausência de métricas que façam sentido para o negócio: o mesmo número de resultados pode ser irrelevante em uma operação e extraordinário em outra, como numa venda complexa de alto valor.

Mas o problema que ela mais destacou foi outro: a falta de um dono. Andréa lembrou o ditado de que cachorro de dois donos morre de fome. Sem uma pessoa com autoridade para dizer “chega, encerramos” ou “funcionou, vamos escalar”, a empresa cai na armadilha da ação sem decisão. Projetos que ninguém encerra e ninguém escala ficam rodando no limbo, consumindo dinheiro e atenção. Em alguns casos, a conta só aparece quando a fatura chega.

Para o RH: cada piloto de IA na área de pessoas merece um objetivo claro, uma métrica de sucesso, um custo-alvo, um risco aceitável e uma pessoa responsável pela decisão de seguir ou encerrar, com checkpoints formais na agenda.

As perguntas que as pessoas estão fazendo

Andréa chamou atenção para algo que passa despercebido nos eventos de tecnologia: quase toda palestra, cedo ou tarde, esbarra nas pessoas. E o que as pessoas colaboradoras perguntam revela entendimento, expectativa e visão de futuro:

  • O que posso e o que não posso usar? E por que não posso?
  • O que se espera de mim no uso da IA?
  • O que acontece se eu errar? Posso testar de novo?
  • Se der certo, o que vem depois? Esse teste vai substituir alguém?
  • Minha meta era 5 e agora entrego 12. Isso muda minha meta, meu reconhecimento, meu dia a dia?

Sem respostas claras, a pessoa fica super eficiente e desmotivada ao mesmo tempo. Ou simplesmente para de experimentar por medo de perder o emprego ou de ser punida por um erro.

Comunicação interna como ativo estratégico

Para Andréa, tudo isso se resolve, ou se complica, no alinhamento entre o que a empresa pensa, fala e faz. Se esses três planos estiverem desalinhados, qualquer ferramenta fracassa, por melhor que seja. E campanhas pontuais do tipo “há três treinamentos obrigatórios disponíveis na plataforma” não dão conta dessa tarefa.

Comunicação interna e treinamento sempre foram ativos estratégicos. Com a IA, a diferença ficou mais visível: sem comunicação, o investimento em tecnologia vira passivo cultural.

O caso da própria Workhub

A parte mais concreta da palestra foi o relato da trajetória da Workhub com IA, contado com franqueza, incluindo erros.

A experimentação começou em meados de 2024, numa fase que Andréa batizou de “vida louca”: qualquer ferramenta nova virava conta criada, e todo mundo podia testar tudo. Vieram os cursos de multiagentes que prometiam facilidade, e a constatação de que arrastar caixinhas era simples, mas saber o que colocar dentro delas, nem tanto. O primeiro agente, voltado ao atendimento interno, levou cerca de oito meses para ficar pronto.

Em 2025, um agente criado pela área comercial começou a gerar indicadores e análises reais. Junto com o resultado, surgiram questões de segurança, e a liderança precisou decidir entre cortar ou continuar. A escolha foi continuar, medindo o risco de forma objetiva, avaliando quais dados estavam expostos e criando métricas para entender se valia a pena seguir.

Em 2026, a experimentação virou governança: stack oficial definido, contas organizadas em um único ambiente, um framework próprio e observabilidade de custos e uso. Hoje a Workhub acompanha quanto cada atividade custa e decide com base nisso o que vale manter. O aprendizado também levou à revisão e ao redesenho de processos.

Do laboratório ao produto

O último movimento foi aproximar inovação e produto. A área que criou as soluções apresentou tudo para o time de produto: como funcionavam, como foram construídas e quais objetivos comerciais atendiam. A partir daí, as duas áreas passaram a decidir juntas o que permanece no laboratório e o que atravessa a porta para virar produto, com critérios de segurança, valor e sustentação.

Andréa resumiu bem: cada coisa tem uma forma. Uma boa ideia, um experimento e um produto no mercado são estágios diferentes, e tratar tudo como a mesma coisa é uma das origens do desgoverno. Com essa separação clara, as novas ideias passaram a nascer e amadurecer muito mais rápido.

O que levar para a agenda de RH e Comunicação Interna

  • Nossa empresa responde, de forma clara e acessível, o que as pessoas podem e não podem fazer com IA?
  • Cada piloto tem dono, métrica e data para decidir se segue ou é encerrado?
  • Sabemos quanto gastamos com IA e quanto valor isso gera?
  • Nossos riscos estão classificados ou tratamos todo dado como igualmente crítico?
  • O shadow AI que existe hoje está nos dizendo o quê?
  • O que a empresa pensa, fala e faz sobre IA está alinhado?

Na Workhub, acreditamos que comunicação interna é performance. A palestra da Andréa mostrou por que isso nunca foi tão verdade: a tecnologia avança rápido, mas só gera valor quando as pessoas entendem o caminho, confiam no processo e sabem o que se espera delas.

#AI Experience Brasil 2026#Cobertura de evento#Governança de IA#Comunicação interna#Liderança de RH
Escrito por

Vinicius Teixeira

Head de Growth da Workhub

Head de Growth com experiência em diversas empresas como revista Exame, Agroboard entre outros.

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