Edit Content

Diáspora tecnológica brasileira e inovação em IA

A história mais inesperada que ouvi no Brazil at Silicon Valley não foi sobre um modelo de linguagem ou uma rodada de investimento. Foi sobre licença de bebida alcoólica.

Uma empresa descobriu que conseguir licença de venda de bebida nos Estados Unidos é um processo burocrático, caro e doloroso. Então ofereceu uma proposta para hotéis e restaurantes: eu cuido de toda a sua licença, gasto um milhão de dólares no processo, e em troca você compra dois milhões em produtos comigo. A burocracia virou estratégia de crescimento. E hoje, esse processo inteiro está sendo automatizado com agentes de IA.

O que me chamou atenção não foi a tática em si, mas o padrão que o Israel descreveu por trás dela. Existe uma curva de maturidade na adoção de IA que ele vê se repetir nas empresas. Primeiro, todo mundo quer economizar dinheiro. Reduzir headcount, acelerar processos, cortar custos operacionais. Depois, a conversa muda para como ganhar mais dinheiro. Novas fontes de receita, eficiência comercial, escala. Mas o terceiro estágio é o mais interessante: inovação que simplesmente não era possível antes. Não porque faltasse ideia, mas porque a economia de escala não permitia. Agora permite.

Para quem trabalha com comunicação interna e gestão de pessoas, essa curva deveria ser um mapa. Porque a maioria das organizações ainda está presa no primeiro estágio: usando IA para fazer o que já fazia, só que mais barato. E tudo bem começar ali. Mas ficar ali é desperdício. A pergunta que RH e comunicação interna deveriam estar fazendo não é “como automatizamos o que existe?” e sim “o que passa a ser possível agora que não era antes?”

Programas de desenvolvimento que se adaptam individualmente em tempo real. Comunicação interna que entende padrões de engajamento antes de qualquer pesquisa de clima. Onboarding que aprende com cada novo colaborador e melhora sozinho. Nada disso era viável na escala que as organizações precisam. Agora é.

O encerramento do painel trouxe uma provocação da Endeavor que conecta tudo: colocar o Brasil no mapa através do empreendedorismo. E o Israel, que é brasileiro e toca sua empresa a partir do Vale do Silício com engenheiros no Brasil, foi direto sobre o que está travando: brasileiros riem de si mesmos quando não deveriam. E muita gente para na beira da decisão. Fica ali, pensando se vai funcionar, se é o momento certo, se vale o risco.

E ele disse algo que ficou: não agir tem um custo. E esse custo pode ser maior do que o risco de agir. A humanidade levou trinta anos para ter uma janela como essa de novo. Da internet para a IA. Não fazer nada agora é, na verdade, uma decisão mais ousada do que parece, só que na direção errada.

Para gestão de pessoas, essa provocação se aplica internamente. Quantas áreas de RH e comunicação estão esperando o momento perfeito para experimentar, para propor, para mudar? E quanto está custando essa espera?

Porque a janela está aberta. E janelas assim não ficam abertas para sempre.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Você também pode gostar: