Quando o Pete Shadbolt tinha vinte e poucos anos e trabalhava num laboratório em Bristol, ele tinha na bancada um chip quântico de dois qubits. Esse chip hoje está num museu. E mesmo naquela época, ele já sabia que para fazer algo realmente útil, precisaria de um milhão de qubits. A distância entre dois e um milhão é o tipo de coisa que faz uma pessoa sensata desistir. Ele não desistiu.
Dez anos depois, a PsiQuantum, empresa que ele cofundou em Palo Alto, está construindo em Chicago uma máquina de 90 mil metros quadrados e 22 megawatts. Quinhentas toneladas de aço levantadas em cinco dias. Parcerias com DARPA, Força Aérea americana, Departamento de Energia, governo da Austrália. E um time de seiscentas pessoas que, segundo ele, inicialmente achava que os fundadores eram idiotas.
Essa conversa no Brazil at Silicon Valley não era sobre gestão de pessoas. Era sobre computação quântica. Mas o que saiu dali tem mais a ver com liderança e cultura organizacional do que a maioria dos painéis de RH que eu já assisti.
O primeiro ponto é sobre como lidar com ceticismo. O Manuel Fernandes, que moderou o painel, abriu dizendo que era cético sobre computação quântica. Fez a lição de casa, estudou, e quanto mais estudava, menos entendia. Até que entendeu o suficiente para investir. E o Pete disse algo que deveria virar regra: a PsiQuantum não deixa ninguém investir na empresa sem começar cético. Porque o ceticismo honesto é o que separa convicção de ilusão.
Para quem trabalha com comunicação interna e mudança organizacional, a lição é direta. Quando você apresenta uma transformação grande, o ceticismo do time não é o inimigo. É o ponto de partida. O erro é tentar eliminar a dúvida com otimismo forçado. O caminho é fazer o que o Pete fez: colocar os números na mesa, deixar as pessoas questionarem, e construir confiança a partir dos resultados, não dos discursos.
O segundo é sobre apostas sistemáticas versus apostas aleatórias. A PsiQuantum é uma startup do Vale do Silício com cultura de ciclos curtos e aprendizado rápido. Mas as grandes apostas, as decisões de cinquenta ou cem milhões de dólares, foram tratadas de forma quase burocrática. Processos de seis meses, relatórios de trinta páginas, cinquenta pessoas envolvidas, análise de primeiros princípios construída ao longo de anos. Três de quatro deram certo. A quarta está caminhando.
Nas organizações, a gente costuma tratar inovação como sinônimo de velocidade. Move fast and break things. Mas quando a aposta é grande o suficiente para definir o futuro da empresa, velocidade sem rigor é imprudência. RH e comunicação interna têm um papel nisso: ajudar a organização a distinguir onde precisa ser rápida e onde precisa ser profunda.
O terceiro é sobre o que acontece quando um time atravessa o impossível junto. O Pete descreveu como os engenheiros, no início, olhavam para as metas e ameaçavam pedir demissão. Achavam que era fisicamente impossível. Mas tentaram. E quando conseguiram, algo mudou. O time ficou, nas palavras dele, inoculado contra a dificuldade. Endurecido de uma forma rica, experiente. E isso virou o maior ativo da empresa.
Para gestão de pessoas, essa é talvez a reflexão mais valiosa do painel. Resiliência organizacional não se constrói em workshops. Se constrói quando as pessoas passam juntas por algo que parecia impossível e descobrem que conseguem. O papel da liderança é criar as condições para que isso aconteça sem destruir as pessoas no processo.
E tem um ponto sobre cultura geográfica que conecta com o contexto brasileiro. O Pete saiu de laboratórios de ponta no Reino Unido e na Austrália e foi para o Vale do Silício por dois motivos: dinheiro e pessoas. Mas, além disso, a cultura. A crença de que coisas grandiosas são possíveis. Ele contou que quando chegou, há dez anos, falava entusiasmado sobre carros autônomos. E pessoas mais velhas e mais sábias colocavam a mão no ombro dele e diziam: “Pete, você é jovem. Isso nunca vai funcionar na vida real.” Hoje ele pede um Waymo pelo celular.
A provocação para organizações brasileiras é parecida com a que apareceu em vários outros painéis do evento: o talento está aqui, a capacidade está aqui. O que muitas vezes falta é o ambiente que permite pensar na escala certa. E criar esse ambiente é trabalho de cultura. É trabalho de liderança. É trabalho de comunicação interna.
Palestra: Building the future of (quantum) computing
Pete Shadbolt + Manoel Lemos
PsiQuantum + HeyHo Ventures

Pioneira em soluções digitais para Employee Experience e CEO da Workhub Digital, transformo a forma como as organizações se conectam com seus colaboradores há mais de 20 anos. Minha trajetória une expertise em tecnologia, liderança e inovação, com foco especial em Modern Work, RH Digital e Comunicação Interna.







