A Workhub segue acompanhando o AI Experience Brasil, e uma das palestras do dia tocou num ponto sensível para quem lidera pessoas. Em “Inteligência Humana na Era da IA”, Marcelo Vieira, Growth Director da WebGlobal, discutiu como a IA muda o valor do dado e o papel de quem o interpreta. A conclusão dele foi direta: as pessoas passam a ser as orquestradoras, e a IA vira força de trabalho a serviço delas.
Uma abertura desconfortável de propósito
Marcelo começou com uma brincadeira. Projetou um slide com o tema errado, fingiu confusão e pediu para a organização corrigir. Logo depois revelou a intenção: provocar na plateia aquela sensação de receber algo que não era o esperado.
A pergunta que veio em seguida foi o fio da palestra inteira. Quanto do tempo que a IA devolve está sendo usado para entender se não estamos fazendo exatamente isso com quem recebe nosso trabalho, seja clientela externa ou interna?

Mais produtividade, mais horas
O paradoxo apresentado por ele é fácil de reconhecer. Se a IA permite fazer tudo mais rápido, deveria sobrar tempo. Na prática, a maioria das pessoas se sente mais produtiva e, ao mesmo tempo, trabalha mais do que antes.
Marcelo lembrou que, em 1930, o economista John Maynard Keynes previu que em 2030 trabalharíamos cerca de 15 horas por semana. A data está logo ali, e a previsão parece mais distante do que nunca. Para ele, isso acontece porque seguimos fazendo as mesmas coisas, do mesmo jeito, só que mais rápido.
Ele também citou uma pesquisa da McKinsey segundo a qual 82% das lideranças esperam ganhos de produtividade com IA, enquanto apenas 23% das empresas de fato escalam o uso. A distância entre expectativa e resultado, segundo ele, está no que fazemos com o tempo liberado.
Para o RH: este é um tema de bem-estar tanto quanto de produtividade. Se o tempo devolvido pela IA vira apenas mais demanda, o risco de sobrecarga cresce. Vale acompanhar jornada, percepção de carga e sinais de esgotamento nas áreas que mais adotaram IA.
A IA potencializa o bom e o ruim
Um relatório ruim feito mais rápido vira vários relatórios ruins. Um dado mal mapeado, multiplicado pela IA, vira um problema maior. E, segundo Marcelo, uma decisão tomada com base em dados errados pode ser pior do que uma decisão sem dados, porque o erro mais perigoso é aquele que cometemos convictos de que está certo.
Ele relembrou a técnica dos “5 porquês”, usada em gestão da qualidade, e provocou: a maioria dos dashboards que vê nas empresas não resiste ao segundo porquê. Painéis bonitos, cheios de indicadores, que ninguém sabe explicar para que servem nem quem os lê.
Para o RH: vale aplicar o teste aos próprios painéis de pessoas. Quem lê o relatório de turnover? Que decisão ele orienta? Se a resposta for “ninguém” ou “nenhuma”, automatizá-lo com IA só vai produzir mais do mesmo.
Cada sistema conta uma história diferente
Um exemplo arrancou risos de reconhecimento da plateia. Em uma empresa analisada pelo time de Marcelo, o CRM registrava 1.200 clientes, o ERP indicava 980, o painel de vendas mostrava 1.450, um agente de IA falava em 1.300 e a planilha da liderança trazia ainda outro número.
Nenhum dos sistemas estava necessariamente errado. Cada um respondia a uma pergunta diferente, com regras e origens diferentes. Sem alguém que conheça o contexto de cada fonte, a decisão fica frágil. Ele contou que, em um trabalho de conciliação financeira, os números só fizeram sentido quando uma pessoa do time explicou de onde vinha cada relatório e por que um deles trazia dados distorcidos. A IA sozinha não teria chegado lá.
Marcelo resumiu: a alucinação de uma IA é um problema técnico. A ausência de dono, de decisão e de conhecimento do negócio é um problema humano.
Para o RH: quantas pessoas colaboradoras a empresa tem? A resposta costuma variar entre folha de pagamento, sistema de RH, organograma e planilhas das áreas. Antes de colocar IA para responder perguntas sobre pessoas, é preciso alinhar definições e fontes.
O que continua sendo humano
Marcelo fez questão de dizer que não estava falando contra a IA, que para ele é uma ferramenta excelente. Mas listou o que ela não entrega:
- Contexto: entender o que um número significa para aquele negócio, naquele momento, com aquela equipe.
- A pergunta certa: a qualidade da resposta depende de quem sabe o que precisa perguntar.
- Decisão e responsabilidade: escolher, assumir o risco e responder pelo resultado.
- Relação: a IA pode preparar uma conversa, mas não lê o momento de quem está do outro lado, não ajusta o tom de voz e não constrói confiança sozinha.
Ele deu um exemplo da área comercial. Um agente pode qualificar leads e indicar exatamente o que cada cliente precisa. Ainda assim, a venda depende de uma pessoa capaz de sintetizar essa informação, perceber se a clientela está aberta à conversa e ajustar a abordagem ao momento.
Outro exemplo envolveu logística. A IA mostrou que trocar de transportadora reduziria o custo de frete. A decisão, porém, levou em conta prazo, qualidade de entrega e outros fatores que só quem conhece a operação consegue pesar. A redução de custo veio junto com entregas mais rápidas porque a recomendação da IA passou pelo filtro humano.
O gargalo mudou de lugar
Para Marcelo, o gargalo deixou de ser o dado e passou a ser a gente. Ele descreveu uma cena comum: a IA entrega em menos de meia hora uma análise com recomendação. Aí começa a parte humana. A reunião leva dois dias para ser marcada porque as agendas não batem, e depois o time pede quase uma semana para analisar. Resultado: 30 minutos de trabalho da IA e dez dias de trabalho das pessoas.
Para o RH: ganhos com IA ficam pelo caminho quando os fluxos de decisão continuam os mesmos. Rever rituais, alçadas de aprovação e excesso de reuniões faz parte da adoção de IA tanto quanto escolher ferramentas.
Três usos para o tempo devolvido
A parte mais prática da palestra trouxe três caminhos para reinvestir o tempo liberado pela IA:
- Pensar mais. O relatório que antes era produzido toda semana pode virar uma pergunta estratégica. Em vez de olhar só para o “quanto”, investigar o “por quê”.
- Orquestrar melhor. Marcelo contou que já foi especialista em planilhas dinâmicas e que hoje seu papel é entender como interpretar cada relatório para o objetivo final. Quem antes operava a planilha passa a ser dona do processo.
- Relacionar-se. Em vez de mandar um e-mail de cobrança para o time, ele hoje liga e pergunta o que aconteceu. Em vez de confiar numa resposta pronta do CRM, conversa com a clientela.
Ele também alertou para o risco de a IA substituir a relação em vez de fortalecê-la: chatbots que impedem o contato com uma pessoa, e-mails genéricos disparados em massa e reuniões trocadas por resumos automáticos que, segundo ele, quase ninguém lê depois.
Para o RH: a IA pode liberar a agenda da liderança para conversas individuais, preparar o histórico antes de um feedback ou traduzir temas técnicos para uma linguagem mais acessível. O ganho só aparece se esse tempo virar conversa de verdade.
As habilidades que vão mudar
Marcelo citou a estimativa de que 39% das habilidades essenciais dos profissionais vão mudar até 2030. Quem construiu carreira dominando ferramentas de dados vai precisar, cada vez mais, entender de negócio e saber formular boas perguntas. A ferramenta muda rápido. O repertório de quem pergunta é o que sustenta a qualidade da resposta.
Para o RH: trilhas de desenvolvimento focadas apenas em ferramentas envelhecem depressa. Formulação de perguntas, síntese, leitura de contexto, negociação e tomada de decisão são competências que ganham peso com a IA.
Por onde começar
Marcelo encerrou com um roteiro em quatro passos:
- Mapear o tempo. Saber quantas horas o time gasta coletando, limpando e formatando dados. Só assim é possível medir quanto tempo a IA devolve.
- Delegar o meio da cadeia. Entregar coleta e processamento a agentes, com limites claros e validação.
- Reinvestir o tempo. Bloquear agenda para pensar, conversar com clientes e redesenhar processos.
- Orquestrar a escala. Ter pessoas responsáveis por área, que conheçam a origem dos dados e o que eles significam para o negócio.
A frase final resumiu a palestra: a IA não vai pensar por nós, ela vai nos dar mais tempo para pensar e decidir.
O que levar para a agenda de RH
- Sabemos quanto tempo a IA está devolvendo às equipes e para onde esse tempo está indo?
- A adoção de IA está reduzindo carga de trabalho ou apenas aumentando o volume de entregas?
- Nossos painéis de pessoas resistem à pergunta “para que serve isso?”
- As fontes de dados de pessoas estão alinhadas, ou cada sistema conta uma história diferente?
- Nossos rituais e alçadas de decisão acompanham a velocidade que a IA trouxe?
- O tempo liberado está virando mais conversa entre lideranças e times?
Na Workhub, essa reflexão conversa diretamente com o que defendemos na comunicação interna. A IA pode organizar informação, resumir e acelerar, mas confiança e engajamento continuam sendo construídos em relações. Tecnologia bem usada abre espaço para mais conversa entre as pessoas.




