O painel com Lidiane Jones, uma das executivas brasileiras mais influentes no cenário global de tecnologia (ex-Microsoft, Apple, ex-CEO do Slack e Bumble), é um testemunho de resiliência e visão estratégica. Em conversa com Ligia e Emilio, ela compartilhou sua trajetória — da infância humilde em São Paulo à liderança de gigantes no Vale do Silício.
Quando a Lidiane Jones tinha doze anos, ela ligou de um orelhão para uma rádio que estava sorteando vagas num curso de programação. Ligou até conseguir. Pegava ônibus sozinha para assistir às aulas. Era a única criança na sala. Todo mundo era adulto.
A mãe dela era faxineira em São Paulo. Faculdade não estava nos planos. O sonho grande era talvez virar caixa de banco. Até que um programa de desenvolvimento social a selecionou, ela fez um estágio júnior na Ford, conheceu um casal americano que acreditou nela, autodidata em inglês por um ano, e acabou com uma bolsa numa universidade em Michigan. Sem falar inglês direito. No frio. Ligando para a mãe uma vez por mês porque era caro demais.
Ela chorava na ligação inteira. A mãe pedia para voltar. E ela pensava: alguém poderia ter tido essa chance no meu lugar. Não posso devolver esse bilhete.
Dali, a Lidiane foi para a Microsoft, virou presidente da Microsoft Brasil, VP na Apple, CEO do Slack durante a integração com o Salesforce. E agora é advisora de VC e embaixadora do Stanford Center on Longevity. Essa conversa aconteceu no Brazil at Silicon Valley, e o que ela trouxe no palco vai muito além de uma história inspiradora de superação.
O que me interessou como profissional de comunicação e gestão de pessoas foi como ela pensa sobre transições, cultura e o papel das organizações em preparar gente para o que vem pela frente.
Sobre escolhas de carreira, ela foi direta: a tendência natural é ir para onde você se sente confortável, porque lá você sabe que vai ter sucesso. Ela fez o contrário a carreira inteira. Sempre escolheu onde ia aprender mais, mesmo que fosse o caminho mais difícil. Saiu da Microsoft para a Sonos sem saber nada de hardware. Voltou para software no Slack. Foi para o Bumble. E o critério nunca foi a marca da empresa. Foi o quanto ela ia ser empurrada além dos próprios limites.
Para quem lidera RH, isso inverte uma conversa que a gente tem o tempo todo. A maioria dos programas de desenvolvimento de carreira nas organizações é desenhada para reduzir desconforto: trilhas claras, próximos passos previsíveis, promoções lineares. E a Lidiane está dizendo que se você não está desconfortável pelo menos um pouco, provavelmente não está se movendo na velocidade que o mercado exige.
Sobre mentoria, ela separou o que é relação genuína do que é networking raso. Os melhores mentores da vida dela a acompanharam por décadas, além de qualquer emprego específico. E ela fez um ponto que vale para qualquer organização: mentoria de verdade é um ciclo positivo em que ambos os lados ganham, mas precisa ir além do momento em que você precisa de ajuda. Senão é transacional, e transacional é frágil.
O Roberto Dagnoni disse algo parecido em outro painel do evento: a vida funciona como uma conta corrente, você acumula créditos nas decisões do dia a dia e usa esses créditos quando os momentos difíceis chegam. A Lidiane é a prova viva disso. O casal americano que a ajudou quando ela tinha quinze anos ainda faz parte da vida dela. Ela foi ao aniversário de oitenta anos do senhor duas semanas antes do evento.
Sobre cultura em momentos de transição, a história do Slack é um caso de estudo. Ela assumiu como CEO depois da aquisição pelo Salesforce, sucedendo um fundador amado (Stewart Butterfield), com duas culturas corporativas radicalmente diferentes: Slack orientada a produto, Salesforce orientada a go-to-market. No último all hands do Stewart, funcionários estavam literalmente chorando. E ela pensou: como eu sigo depois disso?
A resposta dela foi honesta: “Eu não sou o Stewart. Não vou fingir ser.” Mas compartilhamos os mesmos valores. E ela foi cirúrgica: preservou o que era DNA do Slack (obsessão por produto, crescimento orgânico) enquanto conduzia a integração. Todo mês, fazia um all hands em um lugar diferente do mundo. Era transparente sobre o que ia mudar e por quê. E quando precisou, disse não para o Salesforce em decisões que não faziam sentido para o Slack no longo prazo.
Para comunicação interna, isso é aula. Transições organizacionais falham quando a liderança tenta fingir que nada mudou ou quando comunica mudança sem contexto. A Lidiane fez o oposto: admitiu que ia doer, explicou o porquê e manteve o que importava.
E sobre IA e o futuro do trabalho, ela foi a pessoa mais honesta que ouvi no evento inteiro. Disse que seria ingênuo achar que alguns empregos não serão profundamente impactados. Mas que o que está faltando no diálogo da indústria é a parte de preparação. As oportunidades são enormes, mas precisamos ajudar as pessoas a estarem prontas para elas.
E aí olhou para a plateia e disse: vocês são os líderes de mudança nas organizações que vão definir o futuro dos trabalhadores nas próximas décadas.
Quem é de RH e comunicação interna ouviu isso e sentiu o peso. Porque é exatamente isso. O papel não é informar que IA está chegando. É construir o caminho para que as pessoas consigam caminhar nessa direção sem ser atropeladas. É change management na veia, não PowerPoint sobre tendências.
A Lidiane encerrou com algo que conecta tudo: os momentos em que você realmente não sabe como vai sobreviver a próxima semana são exatamente os momentos em que a criatividade real aparece. Quando você está verdadeiramente em restrição. Sem dinheiro, sem certeza, sem caminho claro. É ali que inovação acontece. Não nos workshops de inovação, mas no aperto real.
E o conselho final: não desista cedo demais. Ligue para o mentor, para o amigo, para a pessoa que te ajuda a navegar os primeiros dias difíceis. Mas não desista.
Porque quem ligou de um orelhão até ganhar uma vaga num curso de programação aos doze anos sabe que persistência não é conceito. É prática diária.
A trajetória da Lidiane nos deixa três provocações centrais:
- Mire o Everest: Não limite sua estratégia ao mercado local. Pense globalmente desde o dia um. O “topo da montanha” deve ser ambicioso, mesmo que o caminho até o primeiro acampamento seja difícil.
- Não suba sozinho: Nos momentos de restrição absoluta (financeira ou de mercado), é onde a inovação real acontece. É nesses momentos que você precisa de uma rede de apoio sólida e de uma comunicação interna que transmita segurança psicológica.
- A IA é o motor, a Cultura é o trilho: Como vimos no caso do Slack, a tecnologia só escala se a cultura permitir. O RH deve ser o guardião do “polimento” humano em um mundo cada vez mais automatizado.
“Não desista cedo demais. Os momentos de maior restrição são aqueles onde a verdadeira criatividade floresce.” — Lidiane Jones
Palestra: How can AI unlock human scale?
Lidiane Jones + Emilio Umeoka
Former CEO Bumble and Slack + Board Member

Pioneira em soluções digitais para Employee Experience e CEO da Workhub Digital, transformo a forma como as organizações se conectam com seus colaboradores há mais de 20 anos. Minha trajetória une expertise em tecnologia, liderança e inovação, com foco especial em Modern Work, RH Digital e Comunicação Interna.







