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Governo e inovação ambiciosa

O Astro Teller, capitão de moonshots do X (o laboratório de inovação da Alphabet), estava visivelmente irritado no palco do Brazil at Silicon Valley. Não com o evento. Com o hype.

“IA, IA, IA… Estou tão cansado disso. Espero que vocês também estejam.”

E completou: dizer que usa IA nos seus moonshots é tão útil quanto dizer que usa eletricidade. Óbvio que usa. Isso não é interessante. O que importa é o benefício que se entrega. E no ato de se inclinar tão agressivamente para frente, algo se perde. A paixão, a leveza, a arte de tentar mudar o mundo.

Para quem vive imerso em comunicação corporativa, essa fala é um tapa com luva de pelica. Porque é exatamente o que acontece nas organizações: a conversa sobre IA virou tão técnica, tão urgente, tão carregada de ansiedade que perdeu o sentido humano. E quando a narrativa perde o humano, ninguém embarca nela de verdade.

O Astro disse algo que vale repetir: vocês não vão chegar à lua assim. Tudo que essa intensidade pânica constrói é uma escada até a lua. Vocês nunca vão chegar lá desse jeito. Não seria melhor se pudéssemos abordar a transformação do mundo com positividade e abundância em vez de determinação sombria?

Essa conversa aconteceu num painel sobre moonshots e governo, com o Sidney Levy, presidente da Invest Rio (o mesmo que entregou as Olimpíadas de 2016), e o Rodrigo Xavier, sócio-sênior da GP Capital e fundador do movimento BSV. E o que saiu dali tem implicações diretas para quem pensa cultura organizacional e mudança.

A história de como o Rio se tornou a primeira cidade do mundo a receber moonshots do X é, por si só, uma aula de liderança. O prefeito Eduardo Paes visitou o X e disse: “Eu vou ser o seu melhor parceiro.” O Astro respondeu com a honestidade que o define: “Quero estar errado, mas estatisticamente o número de prefeitos e governadores que sentaram nessa mesma cadeira e disseram a mesma coisa, e depois não fizeram nada, é imenso.”

Isso incomodou o Paes. E foi o que fez a coisa acontecer. Porque em vez de prometer e sumir, o Rio impedance matched com o X. Agiu de forma empreendedora. Rápido. Disposto a fazer acontecer. E quando o Astro ofereceu cinco ou sete moonshots possíveis, o prefeito disse: “Ficamos com esses quatro. Agora.”

Hoje o Rio tem quatro moonshots simultâneos: IA para gestão da rede elétrica, internet de alta velocidade via luz para hospitais, escolas e favelas, IA molecular para reciclagem de resíduos, e reinvenção do licenciamento de construções. Tudo isso ancorado no Rio AI City, um campus de data centers no Parque Olímpico que deve se tornar um dos maiores hubs de infraestrutura de IA da América Latina.

Para quem trabalha com pessoas e comunicação, a lição aqui não é sobre tecnologia. É sobre postura. O Sidney Levy contou que quando anunciou o data center de três gigawatts na inauguração, sem ter nada construído ainda, todo mundo achou que ele ia ser preso. Ele passou três dias respondendo à imprensa global que queria saber como o Rio estava construindo a maior infraestrutura do tipo na história. E a resposta dele foi simples: é como ir à lua. Você anuncia, gera energia nas pessoas, e depois faz acontecer. Isso é liderança.

Mas o contraponto mais importante veio do Astro no encerramento. Alguém perguntou como moonshots podem dar certeza ao governo. E ele respondeu sem rodeios: moonshots não dão certeza. Por definição. Toda inovação radical leva majoritariamente ao fracasso. Quem diz o contrário está mentindo porque quer dinheiro ou negócio. O que podemos garantir é honestidade. E governos que exigem certeza estão garantidos de ficar para trás.

Para gestão de pessoas, essa é talvez a reflexão mais desconfortável e mais necessária do evento inteiro. A maioria das organizações exige certeza antes de aprovar qualquer mudança significativa. Precisa de business case, de ROI projetado, de garantia de resultado. E isso funciona para melhorias incrementais. Mas para transformações reais, a certeza simplesmente não existe. O que existe é a escolha entre liderar com honestidade no meio da incerteza ou esperar até que alguém prove que funciona e chegar atrasado.

O Sidney, que passou a vida no setor privado e agora é servidor público, encerrou pedindo algo que não custa nada mas muda tudo: mais empatia com os problemas que governos enfrentam. Mais disposição para fechar a distância entre o mundo dos negócios e o mundo público. Porque sem essa ponte, nada avança de verdade.

A pergunta que trago de volta: a sua organização está construindo uma escada até a lua com determinação pânica, ou está conseguindo manter a leveza e a clareza de propósito necessárias para realmente chegar lá?

Porque, como o Astro lembrou, não vai dar para chegar com pressa ansiosa. Vai dar para chegar com curiosidade, honestidade e disposição para aprender no caminho.

Palestra: Moonshots Need Governments. Governments Need Certainty. Now What?
Sidney Levy + Rodrigo Xavier + Astro Teller
AI Rio City Center + Board Member + Moonshot

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