A Cheryl Tam Cheng, managing partner do fundo de ventures da Microsoft, abriu sua fala no Brazil at Silicon Valley com uma honestidade que raramente se ouve de investidoras: “Eu me sinto mal pelos fundadores. Literalmente todo dia tem um anúncio do Google, da Microsoft, da Anthropic, da OpenAI que destrói um conjunto inteiro de startups.”
Essa frase carrega mais estratégia do que parece. Porque se isso vale para fundadores, vale também para quem está dentro das organizações tentando navegar a mesma velocidade de mudança.
O painel juntou a Cheryl com Kimmi G., que lidera parcerias de ecossistema de IA na Microsoft, e a conversa foi sobre o que diferencia empresas que sobrevivem nesse ambiente das que desaparecem. E o que saiu dali tem aplicação direta para gestão de pessoas, mesmo que nenhuma das duas estivesse falando com pessoas CHROs.
O primeiro ponto é sobre clareza. A Kimmi foi direta: empresas que se destacam resolvem um problema real de cliente e sabem articular qual é esse problema. Parece básico, mas no meio do hype de IA, a tentação é inverter a lógica. Começa pela tecnologia, procura um problema depois. E isso não funciona nem em startup, nem dentro de uma área de RH ou comunicação interna. Quantos projetos de IA estão sendo implementados nas organizações sem que alguém tenha parado para perguntar: qual problema estamos resolvendo? Para quem?
O segundo é sobre diferencial que resiste. A Cheryl, que investe em estágio muito inicial, disse que procura o que chama de “founder market fit”: a pessoa certa construindo no espaço certo. E completou: o modelo de IA vai continuar melhorando. Então o diferencial não pode ser o modelo em si. Tem que ser o dado, o workflow, o conhecimento profundo do domínio. Para RH, a tradução é imediata: o valor de uma área de pessoas não está em adotar a ferramenta mais nova. Está em conhecer a organização tão profundamente que nenhuma ferramenta genérica consegue substituir esse entendimento.
Sobre agilidade, a Kimmi trouxe exemplos concretos. A Replit, a Cohere, a Mistral, todas pivotaram. Tinham um plano, o mercado mudou, fizeram outro. E quem não pivota, morre. Nas organizações, a resistência a pivotar costuma vir justamente das áreas que deveriam facilitar mudança: RH, comunicação, planejamento. Se a gente não consegue ser ágil internamente, como espera que o resto da empresa seja?
A conversa sobre parcerias estratégicas trouxe algo que vale para qualquer gestor. A Kimmi disse que startups que buscam parceria só para colocar logo no slide fracassam. Parceria se mede pelo que faz pelo negócio: leads, vendas, escala. E muita gente espera ter tudo resolvido antes de buscar parceiro, quando o parceiro certo pode ajudar a resolver. Para comunicação interna, a analogia é clara: parar de tentar ter o programa perfeito antes de envolver as áreas parceiras. Envolver cedo, mesmo quando ainda está desconfortável.
A Cheryl fez uma observação sobre IA e criatividade que deveria estar colada na parede de todo gestor de inovação. Ela disse que IA colapsa o tempo de construção e, com isso, colapsa o tempo de criatividade. Porque quando é tão fácil dar um prompt e ter algo construído em minutos, a tentação é pular a parte de pensar. Mas foi a pergunta certa que você fez? Você pensou o suficiente antes de pedir? Para desenvolvimento de pessoas, isso é crítico. Estamos treinando times para usar IA rápido, mas estamos treinando para pensar antes de usar?
E a conversa sobre mulheres no mercado foi a mais crua do evento. A Cheryl disse sem rodeios que está preocupada. Mulheres estão saindo de venture capital. E se não há mulheres escrevendo cheques, menos mulheres recebem investimento. A geração mais jovem, segundo ela, está cansada. E isso a assusta, porque pode significar um retrocesso. A Kimmi equilibrou com pragmatismo: mulheres são naturalmente resolvedoras de problemas, resilientes e construtoras. E completou que quer ver a empresa de um bilhão de dólares com cinco pessoas sendo cinco mulheres.
Para gestão de pessoas, essa parte da conversa é um espelho. Diversidade não é pauta resolvida. E em momentos de retração econômica ou política, é a primeira a perder prioridade. Comunicação interna tem responsabilidade nisso: manter a conversa visível, honesta e conectada com resultados de negócio, não com discurso institucional.
A pergunta que fica: a sua organização está criando espaço para que as pessoas pensem antes de construir, pivotem quando necessário e se sintam pertencentes o suficiente para ficar? Porque nesse ritmo de mudança, quem perde gente perde mais do que talento. Perde a capacidade de se adaptar.
Cheryl Tam Cheng, Managing Partner at M12, Microsoft’s Venture Fund
Kimmi G., Vice President, AI Ecosystem Partnerships at Microsoft

Pioneira em soluções digitais para Employee Experience e CEO da Workhub Digital, transformo a forma como as organizações se conectam com seus colaboradores há mais de 20 anos. Minha trajetória une expertise em tecnologia, liderança e inovação, com foco especial em Modern Work, RH Digital e Comunicação Interna.







