A Alice Deng, cofundadora da Slope, disse algo no palco do Brazil at Silicon Valley que deveria incomodar muita gente: “Não temos mais product managers. Nem designers.”
Vinte e três pessoas. Sem PMs, sem designers. Atendendo milhares de empresas e trabalhando com Fortune 500. Engenheiros com bom senso de produto iterando protótipos no v0, mostrando para clientes como Walmart e Amazon, e decidindo o que segue. Funciona porque é B2B enterprise: o cliente sabe o que quer. O problema é técnico, não estético. Se o pagamento funciona, ninguém liga se o botão está dois pixels para a esquerda.
Essa conversa juntou a Alice com Christina Lopes, cofundadora e CEO da FidoCure e Talita Lacerda, CEO da Petlove, o maior ecossistema de cuidados para pets do Brasil. Três empresas completamente diferentes, três estágios diferentes de relação com IA, e um painel que trouxe mais honestidade sobre os desafios reais de adoção do que a maioria das apresentações corporativas.
O que mais me chamou atenção foi a transparência da Talita. Porque enquanto a Alice e a Christina estão em empresas AI-first desde o dia zero, a Petlove é uma empresa que nasceu como e-commerce e está tentando integrar IA numa operação que já existia. E a jornada dela é muito mais parecida com a realidade da maioria das organizações.
Ela contou que começaram pelo caminho mais óbvio: eficiência. Customer service, gestão de custos médicos, prevenção de fraude. Viram ganhos em margem. Mas quando tentaram escalar a adoção para toda a empresa, travou. Primeiro tentaram centralizar com um time de IA fazendo soluções para toda a organização. Foi lento demais. Depois tentaram descentralizar, colocando ferramentas de IA na mão de todos os funcionários da sede. Não viram mudança significativa em produtividade. Agora estão testando uma abordagem híbrida: criando campeões internos em cada área, pessoas que ficam responsáveis por soluções dentro do seu domínio de expertise.
Para quem lidera comunicação interna e gestão de pessoas, essa sequência é mais valiosa do que qualquer framework bonito sobre transformação digital. Porque mostra a realidade: não existe um modelo pronto. Centralizar demais é lento. Descentralizar sem contexto não gera resultado. O caminho está em algum lugar no meio, e depende de ter as pessoas certas nos lugares certos, com autonomia e direção ao mesmo tempo.
A Talita foi direta sobre o maior obstáculo: as pessoas estão com medo. Medo de serem substituídas, medo de não entenderem, medo de errarem. E a empresa está monitorando adoção e reforçando de cima para baixo. Não é bonito, não é orgânico. Mas é honesto. E talvez seja exatamente o tipo de conversa que mais falta nas áreas de RH: admitir que adoção de IA não acontece por osmose. Precisa de acompanhamento, de insistência e de muita comunicação sobre o porquê.
A Christina trouxe uma perspectiva que complementa. Na FidoCure, o desafio não é adoção interna. É gerenciar gente com muito ego, de áreas completamente diferentes, que precisa trabalhar junta. PhDs em câncer, engenheiros, veterinários, MDs, regulatórios. Cada um acostumado ao seu silo, cada um achando que está certo. E a cola que faz isso funcionar não é IA. É liderança. É criar uma linguagem comum. É contratar pessoas que, independentemente do domínio, são curiosas e querem experimentar.
A frase dela sobre o perfil ideal foi precisa: alguém com conhecimento profundo de domínio que é faminto por ferramentas. Que olha para IA e pensa “quero brincar com isso”. Esse é o perfil do futuro. Não o generalista que sabe um pouco de tudo, nem o técnico que só entende código. É o especialista que abraça a ferramenta.
Para RH, isso muda como pensamos sobre contratação e desenvolvimento. O critério não deveria ser “sabe usar IA?” mas “tem curiosidade suficiente para aprender qualquer ferramenta nova e profundidade suficiente no seu domínio para saber o que perguntar?”
As três concordaram num ponto que merece atenção: os espaços mais chatos, mais regulados, mais difíceis são os mais defensáveis. A Alice disse que amigos fundadores ligam toda semana querendo pivotar para algo mais empolgante. E o conselho dela é o oposto: fique no que é difícil. Compliance, regulação, anos de trabalho duro para construir confiança. Ninguém vai replicar isso com um prompt no Claude Code.
Para comunicação interna e gestão de pessoas, a analogia é direta. O trabalho de construir cultura, confiança e engajamento numa organização é lento, complexo e muitas vezes ingrato. É o tipo de coisa que não dá para automatizar e que leva anos para dar resultado. E é exatamente por isso que é valioso. Quem tem isso construído tem um fosso competitivo que nenhuma ferramenta nova destrói da noite para o dia.
A pergunta que fica: a sua organização está tratando a resistência à IA como problema das pessoas ou como sintoma de uma comunicação que ainda não encontrou o tom certo? Porque na maioria dos casos, o medo não é da tecnologia. É de não saber qual é o seu lugar no que vem depois.
Palestra: Never Done: Iteration in the Age of AI
Christina Lopes + Alice Deng + Talita Lacerda
FidoCure + Slope + Petlove

Pioneira em soluções digitais para Employee Experience e CEO da Workhub Digital, transformo a forma como as organizações se conectam com seus colaboradores há mais de 20 anos. Minha trajetória une expertise em tecnologia, liderança e inovação, com foco especial em Modern Work, RH Digital e Comunicação Interna.






