Tem uma frase que o Kevin Efrusy, sócio da Accel Ventures, soltou no meio de uma conversa sobre liderança no Brazil at Silicon Valley que me pegou de jeito: “Liderança é fazer a coisa certa quando ninguém está olhando. E fazer a coisa certa quando isso dói no seu bolso.”
Parece óbvio, né? Mas não é. E ele foi cirúrgico em mostrar por quê.
Todo mundo se diz ético, corajoso, com visão. Até o momento em que essas qualidades custam dinheiro, reputação ou conforto. Aí a coisa muda. E ele deu um exemplo concreto: apostas esportivas. Uma indústria que consome entre 30 e 40% do Bolsa Família no Brasil. Uma transferência direta de riqueza das pessoas mais vulneráveis para quem é dono do cassino. E ele recusou investir. Não por falta de retorno financeiro, mas porque liderança de verdade exige coerência entre discurso e decisão.
Essa conversa aconteceu num painel que juntou o Kevin com o Roberto Dagnoni, chairman do Mercado Bitcoin e CEO da 2TM. E o Roberto trouxe uma camada complementar: confiança como ativo estratégico. Ele contou que em 2019, quando tentou levantar a Series A, ninguém queria investir em crypto. A reputação do setor era péssima. A saída foi recorrer a alguém que confiava neles como pessoas, não no mercado. E essa confiança virou contrato, com prazo de dois anos para provar a tese. Entregaram.
Para quem lidera RH e comunicação interna, essas duas histórias carregam um recado que a gente precisa ouvir com mais atenção.
O primeiro ponto é sobre liderança e coerência. A gente gasta tempo e energia enorme construindo programas de desenvolvimento de líderes, definindo competências, desenhando trilhas. Mas com que frequência a organização testa essas competências em situações que realmente custam algo? Empatia é fácil quando não tem pressão. Coragem é simples quando não tem risco. O Kevin fez a plateia inteira levantar a mão para listar qualidades de um bom líder. E depois mostrou que a maioria dessas qualidades evapora quando a decisão dói. Comunicação interna tem um papel enorme aqui: não é só comunicar valores, é criar narrativas que mostrem o que esses valores custam na prática.
O segundo é sobre confiança como cultura. O Roberto não conseguiu investimento por ter o melhor pitch ou o melhor produto. Conseguiu porque alguém confiava nele. E essa confiança não apareceu do nada. Foi construída ao longo de anos, em decisões pequenas que ninguém viu. Ele usou uma imagem que achei poderosa: a vida funciona como uma conta corrente de créditos e débitos. Você vai acumulando créditos nas decisões do dia a dia, e quando o momento difícil chega, precisa desses créditos para pedir ajuda. Para gestão de pessoas, isso muda a conversa sobre retenção, sobre employer branding, sobre tudo. A confiança se constrói nos bastidores, não nas campanhas.
O terceiro ponto é sobre potencial desperdiçado. O Roberto contou a história do Felipe Menezes, medalhista de olimpíada de matemática que virou fundador e vendeu sua empresa para o Nubank. E o Felipe mesmo disse que o conhecimento técnico não bastava. Ele não sabia o que fazer com aquilo até desenvolver habilidades sociais e de liderança. Isso conecta diretamente com algo que apareceu em várias falas do evento: não adianta ter um conhecimento técnico extraordinário se você não consegue usar, se não sabe o que fazer com isso. E para usar, você precisa das pessoas.
Capacitar times para usar IA sem antes garantir que dominam o fundamento da sua função é construir em cima de areia.
Kevin Efrusy
O Kevin foi enfático sobre educação e IA: os melhores usuários de inteligência artificial são as pessoas que dominam os fundamentos da sua área. Que sabem o que pedir. Que não confiam cegamente no que a IA devolve. O conselho dele para um jovem de 17 anos? Vá para a faculdade. Aprenda os fundamentos. Não terceirize o pensamento.
Para quem trabalha com desenvolvimento de pessoas nas organizações, o paralelo é direto: capacitar times para usar IA sem antes garantir que dominam o fundamento da sua função é construir em cima de areia.
E tem uma camada nessa conversa que talvez seja a mais relevante para o nosso contexto. O Kevin explicou por que saiu do Vale do Silício e foi investir na América Latina: estava desiludido com empresas que abandonaram seus princípios em nome do preço das ações. E o que encontrou no Brasil foi gente construindo por razões certas. Não por oportunismo, mas por propósito.
Só que ele também trouxe um dado incômodo: 85% dos brasileiros precisam de mais de um emprego para fechar o mês. O empreendedorismo na base não nasce de vocação, nasce de exaustão. E a diferença entre um país que cresce e um que estagna, segundo ele, é liderança. Argentina e Chile tinham tudo parecido em 1980. Trajetórias radicalmente diferentes. Liderança importa em todos os níveis, do país à equipe.
A pergunta que trago de volta para quem cuida de pessoas e comunicação nas organizações é essa: a liderança que a gente desenvolve está sendo testada nas decisões que doem ou só nas que ficam bonitas no relatório anual?
Porque cultura não é o que a empresa diz. É o que a empresa faz quando ninguém está olhando.
Palestra: Building the Next Generation of Leaders in the Age of AI
Kevin Efrusy + Roberto Dagnoni
Accel + Mercado Bitcoin

Pioneira em soluções digitais para Employee Experience e CEO da Workhub Digital, transformo a forma como as organizações se conectam com seus colaboradores há mais de 20 anos. Minha trajetória une expertise em tecnologia, liderança e inovação, com foco especial em Modern Work, RH Digital e Comunicação Interna.







